Poesias
A paisagem é um decalque fora
dos meus olhos.
Desfalque no fôlego
fácil do
pássaro.
Depois da prise
o estalo que vara
uma manhã inteira
o vôo todo
sem sílaba tônica
que sorva para mim
a cidade.
Lígia Dabul

TRANSMUTAÇÃO
A poesia espana o meu cotidiano.
A poesia sobe, se esparrama
e brilha à luz do sol.
Tudo me pertence.
Sinto, ouço, vejo, transformo.
Tenho licença.
Falo do objeto:
matizes, serventias,
conteúdo, transcendência.
Falo não só da caneca,
mas do cálice sagrado.
Falo do amor, falo da morte,
de inveja, limite, saudade,
- do que é humano.
Tão simples, tão complicado.
A poesia espanta o meu cotidiano!
Laura Esteves

EXUMAÇÃO
Sempre soubera de perdas
e aprendera cedo
que o medo tinha medo...
Aceitara paciências e olá-como-vais,
dava bom-dias noite adentro
e causava-lhe pânico
a ameaça de um único dia
acabar desculpada....
Experimentara os estupros,
alguns consentidos,
outros sentidos,
alguns indolores “duran”
durariam...
E a vida, assim, morta em vida,
inspirava-lhe casualidades.
Sua aparente mansidão chocava loucos,
inspirava sádicos
ou passeava pela multidão indiferente,
mesmo que insistisse em morrer inerte,
pontual e rapidamente,
aos poucos...
Márcio Paschoal

A SEGUNDA MOLDURA
Ainda guardo o retrato de Ingrid Bergman
como se fosse minha Casablanca.
Na antiga moldura
o passe-partout:
cercadura incipiente,
cartolina azul já desbotada.
A gaveta era a sua segunda moldura
— úmida e voltada para dentro, não se abria.
O passado, às vezes, não diz coisa com coisa,
derrapa, escapa, não conta tintim por tintim.
Deixa um vazio, um aperto, um desassossego,
essa névoa no aeroporto.
Como rascunho,
o passar do tempo-túnel disfarça,
não se quer passado a limpo.
Mas o que foi lembrança é lembrança:
o mesmo filme, as diversas cópias,
os retoques a cada lágrima.
Hoje um alfinete retém a foto na memória,
nada mais.
Augusto Sérgio Bastos

SOL NA RUA DO SOBE-DESCE
à sinistra, o sol – o que assombra.
sobre as árvores, o céu tomba
solidário, à espreita.
à destra, o dia anoitece
entre as frestas da tarde estreita.
no coração, a sombra cresce.
na rua, o sol sobra e desce.
Ronaldo Werneck

As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem
nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa —
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.
O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.
As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)
Paulo Henrique Britto

Não gosto da cor azul
lembra céu diáfano
abóbada de matriz de subúrbio
fita de filha de maria
algo telúrico
lembra olho-oceano-fundo
mergulho-náufrego
fico enjoada
fim do mundo
cheiro de bordo
mesmo sem viajar
Leda Miranda Hühne

NUA E CRUEL
Não fiquei bonita
nem rica
Não venci batalhas
não morri na guerra
E nem casei com o rei
Luiza Vianna

NUVENS
Passam pássaros longínquos
no alto da órbita azul de Copa.
Desde a areia eu os olho.
Não
haverá mais nada a fazer.
O corpo flutua sobre as águas
claras, que aos poucos
entram pelo nariz, pela boca,
sem que sequer sinta ou se mova.
Nada passado pelas retinas,
ou pelos ouvidos, degustado,
nada escrito,
nenhum sentido
terá de serventia.
Renato Rezende

BILHETE
Meus olhos não expressam teu abismo,
têm um brilho
e não se chama afinidade.
Olho-te como quem
vê um gafanhoto enorme
a se abrigar
no pára-brisa do carro:
um homem elegante e de olhos verdes
com a barba ideal para noites de inverno
nesse frio de cristal
onde o bicho repousa
Inclino-me
e evito acelerar
para que ele não voe
e pouse
suas pernas finas
suas breves mãos
nesse meu corpo
num lugar onde o vento
faça a curva.
Suzana Vargas

CONTO VAGO
de tão lúcido
envolvo-me no tecido feito em fios
de um conto vago
expulso de teus lábios
de tão amargo
(se bem que o gosto sabe a despedida)
aguardo a volta da viagem indefinida
contando todo fim de cada dia
por ser ao mesmo tempo
amargo e lúcido
escrevo solidão dentro de casa
e deixo abertas impenetráveis portas
Carlos de Hollanda

TRAIÇÃO TRÊS
clarisse olhou o barco com dois olhos salgados
esperma ainda quente provocando frio no ventre
foi de encontro à água na areia
arrastou seu corpo pelas pedras
um marisco ainda vivo
penetrou nas suas trevas
e se instalou definitivamente
no lugar mais inseguro do seu porto
para perturbar por toda vida sua fonte de prazer
Artur Gomes

MUTAÇÕES
A morte não contamina,
extravia-se no corpo, inscreve-se
nos interstícios dos passos.
Espinho sob carapaça,
quelóide esquecido
ao vício das entranhas.
Viver — hábito
Que mata!
Estranho à ostra,
o espinho invade, corre,
irrompe extrapola a pérola!
Ao pé do garoto, o anátema.
Inigualável sangra o pontapé
que não se repete
ao vício das entranhas!
Viver—hábito
Que mata!
Quem sabe o tiro rasgue mais a terra
que o espinho a pele inflame!
Esvai-se o plasma, o sangue o útero.
Tomba a árvore e o fruto,
nasce o grito.
E a semente resiste
ao vício das entranhas.
Viver hábito
Que mata!
Léa Madureira

CORRESPONDÊNCIA
Quando digo que dias têm câimbra
digo menos do movimento zero
do tempo preso na fotografia
não digo da ausência de hélices
sequer digo de areias ou deserto
do ar rarefeito ou da vertigem
tampouco me refiro ao dia
que vai a esmo dentro do círculo
e por medo não pára, nem se mira
Quando digo que dias têm caimbra
digo pouco de teias, labirintos
quase nada de muros, finitudes
sequer penso na solidão de ínsulas
nem na morte inútil de seus cardumes
digo apenas que doem os corpos
quando intervalos ou anteprojeto
digo do estar-no-mundo, do divórcio
entre nós e o que somos, tão opostos
Marcus Vinicius

Velhas idéias cospem no meu rosto
a saliva amarga do dia-a-dia,
a homogênea monotonia
da imagem incerta, do plágio tosco.
Eu, a ingênuas mágoas exposto,
face ao metro quadrado que me guia,
sou morro alto, frente à ventania,
da missa, vinho de hediondo gosto.
De todos os revezes, sou, às vezes,
mesmo das vestes do meu corpo,
o alvo e a flecha, o remendo torto.
No cinza dos dias, com o passar dos meses,
vejo-me a gerar, como um aborto,
sempre o mesmo verso morto.
Érico Braga |