Antonio Olinto lembra os 100 anos do poeta chileno: Poucas vezes conseguiu um poeta representar um Continente inteiro e tornar-se, no resto do mundo o apóstolo de um movimento poético posto a serviço das mais generosas aspirações de um tempo.
Eis a manhã no coração do estio
Pablo Neruda
Eis a manhã no coração do estio,
cheia de tempestade.
Iguais a lenços brancos de adeus, passam as nuvens,
e o vento as sacode com sua mão viajante.
Inumerável coração do vento
pulsando sobre o nosso silêncio enamorado.
Zumbindo sob as árvores, orquestral e divino
qual uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva em rápido roubo a folharada
e que desvia as flechas palpitantes dos pássaros.
e que a vai derrubando em onda sem espuma
e substância sem peso e fogos inclinados.
Lacera-se e naufraga seu volume de beijos
batido junto à porta desse vento estival.
20 poemas de amor e uma canção desesperada |

Artigo: Sobre Aluízio Leite (1938-2000)
O Importante é Saber Começar
Um pouco antes de sua morte o ex-livreiro da Timbre Aluízio Leite esteve na Editora Uapê e deu um depoimento que não queremos esquecer.
Quem acabou de escrever um livro e sonha em colocá-lo à disposição do leitor deve enfrentar a mesma “via crucis” que Drummond e Márcia de Andrade percorreram até se tornar conhecidos: custear a própria obra e torcer para que uma boa crítica o coloquem no rol dos escritores pelos quais as editoras se interessam.
É o que diz Aluízio Leite, da Timbre, livreiro apaixonado por poesia, salientando que o primeiro item está bem difícil no momento: “Não existe crítica literária país. Só a de Wilson Martins, mas eu não discuto o que ele faz.” Ressalta, no entanto, a importância das resenhas na divulgação de um livro.
Quanto à venda, o preço do livro, o arrocho salarial e a globalização do mundo vão contra o autor nacional, que só conta com uma pequena parcela da classe alta e, principalmente, da classe média intelectualizada para consumir o seu produto.
Leitor voraz, Aluízio devora o que lhe cai nas mãos. Embora nem sempre chegue ao fim. “O importante, num autor, é saber começar. Daí em diante, se a obra se sustenta ou não, é um outro problema. O livro é um rio que flui, uma coisa viva que, de uma forma ou de outra, vai fechar. Como a vida.”
Apesar das condições adversas, acha importante lutar. E, principalmente, ser fiel a si mesmo. “O autor só se impõe quando abre o próprio espaço e põe para fora a sua visão do mundo. Pode até acontecer de alguém descobrir um caminho comercial rentável mas, se ele não corresponder a uma verdade interior, o público vai acabar percebendo e deixando de comprar.”
Nem por isso Aluízio deixa de reconhecer a força do “best-seller”, ele mesmo um grande leitor de tudo o que se refira à Segunda Guerra Mundial. “A bomba atômica esgotou o filão da Guerra Fria. Agora, o tema é tráfico de drogas ou burocracia administrativa.”
Na sua livraria, no entanto, o que vende bem é poesia. E biografia. “Auto-ajuda também deve estar vendendo, mas não tenho”. Da mesma forma esoterismo.
Na escolha de livros o seu critério a qualidade. “Não importa de onde venha, contando que seja bom. Mas acho importante dar uma força para o autor nacional. Nos últimos meses houve excelentes lançamentos, como Chalaça, as biografias de Mauá e Roberto Campos, Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais, Precisão Selvagem, de Renato Camargo, O Povo Brasileiro, de Darci Ribeiro, Terra, Céu e Aruanda, de Rodolfo Motta Rezende.”
Para a poesia ele abre uma exceção: “Aceito também em consignação”. Mesmo porque, já acentuamos, poesia vende muito bem. Tanto a tradicional quanto a de vanguarda. Aluízio gosta de tudo mas recomenda, em especial, a Geração Modernista e, entre os novos, Carlito Maia e Nuno Ramos.
Das prateleiras brasileiras, lamenta a ausência da literatura portuguesa. “Estamos de costas para ela. Com exceção de Saramago, ninguém conhece o autor português contemporâneo. No entanto, existem grandes, como Davi Mourão Ferreira, Agostinho Bessa, João Cardoso Pires, Almeida Farias. O mesmo quanto ao sul-americano. Três ou quatro se tornaram mitos, os outros são desconhecidos”.
Vender livro dá para viver. Não para ficar rico, para ir a Europa todo ano. Mas, o suficiente para que ele se sinta realizado. Este ano está difícil, março foi bom, depois caiu, como é normal em abril, mas um pouco mais do que o normal. Este círculo é esperado, acontece sempre, este ano um pouco agravado. Já maio é um mês bom.
Para o autor, recomendo muito cuidado no lançamento de um livro. Uma boa divulgação para a noite de autógrafo, mesmo porque a mídia, mesmo que não fale bem, sempre chama a atenção.
Para Aluízio Leite, a arte de escrever começa a se desenvolver na infância. “O ambiente e a educação são fundamentais. Só um gênio pode escrever sem ser um bom leitor.”

Expediente
Direção: Leda Miranda Hühne
Jornalista Responsável: Glória Barreto (reg. no 13.480, livro 60, fls 21v)
Comissão Editorial: Augusto Sérgio Bastos, Leda Miranda Hühne, Léa Madureira, Luiza Viana e Marcus Vinícius
Ilustrações: Zilla Mars
Projeto Gráfico: Augusto Cesar Barros