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Jornal Poesia Viva - Número 29

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Entrevista: Margarida Finkel

Margarida Finkel

Como você se iniciou na literatura?

Nos meus 16 anos de idade, com meu caderno de versos, busco no cartório de Olegário Marianno, o Príncipe dos Poetas, a resposta para a minha indagação. Esses poemas são bons ou não? Vejo-me diante de um belo homem, alto, de atitudes elegantes, que extremamente admirado estende suas mãos, abrindo-me o caminho do mundo das letras. A imprensa escrita e falada se manifestou com generosidade a meu respeito. E entre os generosos críticos estava Pereira da Silva que me saudou entusiasticamente em seu artigo na revista Vamos Ler, cujo título ele colocou em caixa alta — “Duas revelações literárias do ano”. Referia – se também a obra em prosa “A Busca” de Maria Julieta Drummond de Andrade e mais, com nossas fotografias estampadas no alto da página. Foi uma gratíssima surpresa que ambas tivemos. Decorrido um breve tempo o próprio poeta fez editar o livro com o titulo “Meu Amanhecer”, com o qual o batizara. Convida-me ao chá na Academia Brasileira de Letras, onde, para surpresa minha, lê o prefácio, ainda inédito, em plenário, e que consta dos anais daquela Casa. Apresenta-me numa tarde de sábado, lendo os meus poemas, no Pen Clube do Brasil sendo seu Presidente o Acadêmico Cláudio de Souza e, na platéia, presente o Dr. Hidebrando de Góes , Prefeito da cidade.

Que autores a marcaram?

Graciliano Ramos, com Vidas secas, onde dói sempre a cachorrinha Baleia em sua pungente morte, e no sentido mais abrangente, a miséria e a fome do Nordeste. Lima Barreto em Recordações do Escrivão Isaias Caminha. A obra de Machado de Assis. Os poetas Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, Augusto dos Anjos, Alphonsus Guimarães e a sua magnífica-” quando Ismália enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar queria uma lua no céu queria outra lua no mar...”Menotti Del Piccha , Carlos Drummond de Andrade e Castro Alves, glorioso. A literatura russa, seus autores que eu amava. Dos contos russos, como O capote de Gogol. E Tchecov com o inesquecível conto Angustia. Na França Émile Zola, Balzac, Marcel Proust, Baudelaire, Rimbaud e Verlaine. Da infância, Cristian Andersen, a lembrança inesquecível de seu belo conto– a menina dos fósforos coloridos. Absolutos, Fernando Pessoa e seus heteronômios: Alberto Caieiros, Ricardo Reis, Álvaro Campos. Pablo Neruda em seus 20 poemas de amor e uma canção desesperada-” posso escrever os versos mais tristes esta noite”. Como bibliotecária vivi o encantamento da companhia perene de autores e seus livros amados.

De onde vem o seu interesse pela tradução?

Por dois anos vivi na Inglaterra, acompanhando meu marido, a convite da Real Força Aérea Britânica ao Governo brasileiro. Em Londres nasceu nossa filha. Do meu gosto pela literatura inglesa, o caminho para as traduções. De Roswhita Kempf, de nacionalidade alemã, amiga e editora de No Tear dos Ventos, Ausências Claras e Rede Mar de espelhos, o aprendizado do idioma alemão e a parceria nas traduções.

Como a poeta vivencia o momento da criação?

É sempre um espanto. Acontece. Em notas de mercado, no ônibus, no avião, na porta de peixaria (onde o meu poema O PEIXE aconteceu). O inusitado surge de repente. E é sempre um assombro. Insegura a respeito de meus poemas certo dia perguntei ao meu saudoso amigo Oswaldino Marques se o que eu lhe mostrava era um poema. Sua resposta: Você não sabe de nada, você é um cavalo de Exu.

Sua obra tem alguma relação com a geração de 45 ou com algum movimento literário?

Meu primeiro livro surgiu em 1946. Jamais me filiei a qualquer movimento literário. Porém o escrever trouxe-me a senha da amizade e admiração por amigos que se fizeram amar. Oswaldino Marques, poeta e critico literário, Carlos Drummond de Andrade que acompanhou meus dias com carinho de amigo, Geir Campos, Paulo Mendes Campos, Thiago de Mello, Mauricio Caminha de Lacerda, Walmyr Ayalla, Darcy Damasceno, Léo Gilson Ribeiro, Vinicius de Moraes, Afonso Félix de Souza. Muitos se foram, mas permanecem em mim, amigos e presentes nos textos de seus livros que sempre me comovem.

Em decorrência da formação e das atividades profissionais, poderia dizer que sua vida se confunde com a literatura?

Minhas atividades como bibliotecária na Secretaria de Educação e Cultura, do antigo Distrito Federal, e na Biblioteca Nacional do Teatro levam minha vida a entrelaçar se com a literatura.
A União Brasileira de Escritores, Sociedade Eça de Queiroz e o Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro como membro de Diretoria dessas Entidades igualmente levam-me ao Mundo das Letras. A literatura é “minha ilha do sol “em todas as “minhas estações”- primavera, verão, outono e agora, inverno, deixa-me sempre alerta: a ordem é seguir.

Por que na sua trajetória poética há um espaçamento de publicação?

Atendendo a imperiosas razões do destino. Contudo, minhas gavetas sempre guardavam escritos. Poemas e contos.

Os poetas são movidos por paixão? Por que o titulo do livro Do incansável amor cantarei?

Sim, pois a paixão significa, é a chama que traz o incêndio. O amor foi o tema fundamental da minha Poesia. Ele tudo move, o ser, as coisas, os animais, a natureza, e no luto por tudo que é vivo, sofre e chora.
O título do livro Do Incansável Amor cantarei, é o último estrofe verso do poema elegíaco Lua de Maio, leia-se portanto, Do eterno amor Cantarei.

Quais seus novos projetos de publicação?

Recentemente, em março, a convite da Editora Sobreletras, de Marilu Linz Flygare e Helena Ferreira, participei de uma antologia de contos, na qual assinei “ O Relogoeiro e Manhã de Domingo.
Em fins de 2003 participei da mesa redonda “Lembrando Drumonnd” na passagem do Centenário de seu nascimento, com Fernando Py, Antonio Carlos Secchin e Thereza Cristina Meirelles de Oliveira. Minha fala foi publicada na Revista da Academia Brasileira de Literatura, onde ocupo a cadeira nº11 cuja patrona é Cecília Meirelles. Poemas e contos na gaveta. Particularmente em texto poético em memória ao carnaval que eu vivi no Rio antigo, nos meus tempos de menina que morava na Praça 11 e a saudade da família. A ordem: é seguir.

 

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