Poesias
PÓS-APOCALÍPTICOS
Heróis pós-apocalípticos sairão das chamas
renascerão das cinzas do ontem inextinguível.
Ao som de bossa-nova, rock ou blues
dirão do sonho impossível?
Virão nos recordar, não somos andróides
nem escravos, e a Terra é um planeta azul.
No caldo cultural afogados, se instauraram
outras ditaduras. Sedutoras, insidiosas nos cegaram.
Tateamos: ao som de M.P.B., rock ou blues
nostalgia do não vivido? Seremos libertos
aponta o guru: no cinza crasso o Cruzeiro do Sul.
Meus super-heróis, meus poetas, meus profetas
utopias românticas, gritos de protesto, canções de liberdade.
Explorar lateralidades, de cada mil facetas
não sobrepuja a História não impede a verticalidade.
Viriam em naves de fogo, sementes vibrando metálica luz?
Ao som de bossa-nova, rock e blues.
Adriana Montenegro

MOMENTO
A vida, por exemplo,
esse intervalo
de cores reticentes,
tem no ar a despedida.
Respiração discreta,
a via clara
o vinho tinto,
pouco a pouco
me ponho na ponta dos pés.
(Entre o cinza do amanhã
e o branco da espera,
me permito o azul)
A porta aberta,
o vão do tempo,
a vida apenas,
este momento.
Augusto Sérgio Bastos

BORDADO
Extrai do teu abraço a força
E entrega-a ao vento.
Do castiçal retira a cera adormecida
e refaz a luz.
Os passos de teu mais próximo desafeto
imobiliza-os
e restaura a fidalguia dos fantoches.
Destrói educadamente as gáspeas dos sapatos de verniz
e com elas fabrica alpargatas.
Há pés nus em teu encalço.
Que o chafariz não perderá o encanto
nem o drama esquecerá em suas cenas
o parco lirismo.
Tua mão deslizará pelo linho branco
fio a fio
e tecerá, diligente e suave, o verdadeiro bordado
do parvo e do sábio
em uníssono.
Conceição Albuquerque

MEMÓRIA
Da floresta, resta-lhe
o perfume da madeira
misturado ao do peixe
que lhe abarrota o ventre
vazio de sua verde origem.
Pesado, o barco geme
do excesso e da saudade.
Dora LocatelliI

GEOGRAFIA
não te quero, poema, pantaneiro
folha inundada pelo que não preenche
palavra vazada em desperdício
afogada no excesso de sempre
não te quero, poema, caatinga
rasgar teu cacto na hora da seca
se no ardor do cansaço
parto em êxodo à procura da vida
não te quero, poema, puro pampa
se já escalo montanhas no corpo
ávido de outro que não seja morro
e não se entregue plano
não te quero, poema, da amazônia
se devastado basta um olhar
e basta me olhares não respiro
o que a árvore oferta e em mim não sinto
não te quero, poema, metrópole apenas
passo apressado esquivo à mata
pouco atlântica te quero atlântico
vestido de brisa onde houver canto
te quero poema, brasil inteiro
confluência de todos os rios
orla sem fim para o que for começo
cais aberto a qualquer estrangeiro
Igor Fagundes

QUANDO OS DEUSES SE CALAM
chega até eles
na paisagem agreste
a seca
chega até mim
clamor das gentes:
faca
me deixo estar
na areia movediça
de seu deserto
ali
onde possível florescer
e celebrar
quem sabe ainda
uma promessa de chuva
Joana Maria Guimarães

FAZ-ME BEM
Faz-me bem, o colo da manhã,
das histórias inda não contadas,
atraindo pastos, camponeses...
E, de encostas lisas, decolar.
Faz-me bem, da chuva, o reposteiro
contra a luz da igreja, entre os vitrais.
E ao cortejo, a estrada e o boiadeiro,
em rude peleja de oração.
Faz-me bem, da terra, o velho tronco,
encharcado em sombras, a ofertar
repertório em copos de hortelã...
Cirandeiro às rédeas, seu cantar.
Faz-me bem, a força que há no mato
afastada a foice ao capineiro.
E de espora e espada, o cavaleiro
que o caminho, em cruz, assinalou.
Faz-me bem, o mito que há na crença
(à evasão do sábio doutrinar),
das andanças, voz de trovadores,
pajelança e cantos de orixás.
...E, da pele, entranhas merejar.
Léa Madureira

O grito do sapo
largado no lago
é ronco da noite
monótono e sereno
apesar do maremoto
assolando o terreno
– insone tsunami
Leda Miranda Hühne

POÉTICA
dar nome
a tudo
desde os bois
até o pasto
impondo à palavra
o significado de pedra
enquanto em poesia
a palavra voa
e nunca é
o que se imagina ser
Luiz Otávio Oliani

SIMETRIA PERFEITA
Agradeço
à garça
seu desenho
de vôo
Luiza Viana

INVENTÁRIO DE ARTAUD
no asilo de alienados de Rodez
um poeta se faz de dado
e aceita o jogo da lógica
as faces do dado, os corpos
não temem a morte sem face
sob a forma de uma corda
num canto do quarto do asilo
um poema se dependura
como se outro Van Gogh
não fossem as paredes claras
na sua suposta calma
de anestesia para toda dor
mas paredes também lembram
os muros do tempo, o ao redor
ou a camisa-de-força
teria tudo sido um teatro
sempre o quase grande salto
o corpo sem órgãos a se expor?
não, arranca as vísceras e lê
escreve de si tantas cartas
por fim o dado arrisca a sorte
mas cai de quina, sem face
que o identifique, no entre,
contrário aos olhos, não-lógica
arte sem moldura, solta
no ar, sem jamais se repetir
no fluxo da desmemória
Marcus Vinicius

A ARANDELA E O ESPELHO
Frente ao mar, avarandada sala
vidros, plantas e pintura clara.
Salpicos em textura creme.
Barco no canal, sem leme
em diagonal atravessa.
Sem pressa, põe-se o sol.
Imensa dourada bola
a desfazer-se no azul.
Rumo ao sul
revezam-se as gaivotas.
Adormecida palma da mão
repousa em livro entreaberto.
De certo, acabado o disco,
soaria o relógio às seis horas.
Refletida em bizantino espelho,
vaidosa arandela,
em cristal, ouro e opalina,
a iluminar, tênue,
o suave sono da menina.
Maria Orlandi

SIMPLICIDADE
O que por mar vier não sendo barco
onda coral peixe retardatário
será de mim o que deixei alhures:
praia perdida de remoto mar.
O que por ar vier não sendo asas
— aeronave ou ave migratória —
rumor será do vento nas acácias:
rota antiga de um sonho perdulário.
O que por terra vier será bem-vindo
como bem-vindas são as coisas simples,
estratégia e rotina se alternando:
legada a insanidade aos altos píncaros.
Maria Thereza Noronha

MOTIVO
Desbota
num tom de descuido
a tarde
nem paz
nem brilho
incômodo descaso
onde garra
e tridentes?
nem guerra
nem brancos lenços
entremeada de ocaso
nem una
nem dupla face
E na indefinição do antepasto
é posta a mesa
e servida
a separação
ao dente
Marilia Amaral

NO CORTEJO DAS ÁGUAS
Olhando meus olhos e pensamentos,
pequenos cisnes a deslizar pelo verde-noite
na parede.
Lambendo-me a pele regatos transitórios,
contemplo o sossego do nado.
E, imersa em mim,
vou embalando meus rios e memórias
nesse cortejo das águas e aves de azulejo.
Invejando o cheiro dos frutos, o corpo
não assume o suor da fadiga.
À hora do banho, um pouco de nós se vai.
Mirian de Carvalho

NOTURNO II
A Paulo Henriques Britto
A noite é cuidadosa com seus cúmplices.
(Desse mantra sobejam flores inúteis
que sei serem o sono, a morte, as angústias
cotidianas, a Verdade que assusta
mas também sonhos, enganos, ternuras,
ir ao cerne das formas nascituras
e deitar a garra sobre a Eternidade.)
Ah, nas boates, a luz pela metade
sugere sedas, ouro, um tal mistério
de canções e desejos, os sortilégios
que à noite lúdica e terna se cumprem.
ROSANE BARCELLOS RAMOS

TRANSITÓRIO
Nuvens do céu desciam
trazendo Anjos e Arcanjos.
Luz canto sinfonia...
No oprimido peito, agora,
desejo lasso, incontido.
Histórias, histórias, as mais diversas,
às vezes inversas, às avessas.
Puro retrato da alegria.
Ficção? Ilusão? Efêmero momento
— definição do próprio tempo
que mudou o tom do tempo
ao ver esconder-se a luz
a crescer, do mundo,
a escuridão.
Vera Tavares

CORPO NO ASFALTO
Vejo um corpo no asfalto
vestido de terno de linho branco
camisa de negra seda
e sangue de fidalgo
folhas de outono cor de antigo ouro
silenciosas caem para enfeitar o morto
frio como neve é o luar
o asfalto o linho a seda o sangue
o adorno de folhas mortas
uivando encravam-se no meu olhar
Wanda Lins
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