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| Jornal Poesia Viva - Número 30
Editorial: Ainda é tempo de Poesia?
Entrevista: Stella Leonardos
Contracapa: Homenagem a Mário de Andrade
Depoimento de Waly Salomão
Entrevista: Stella Leonardos
Quem é Stella Leonardos?
Uma mulher que escreve. Por amor, por compulsão e por genética. Uma escritora que é do Brasil, vivenciou-o, viajou muito, morou no estrangeiro, amou outros povos, conheceu sábios, e voltou pro seu país. Brasileira. Mais brasileira do que nunca.
Considera sua obra eminentemente épica?
Christina Ramalho o prova com lucidez convincente, num belo estudo que muito me honra. Só meus romanceiros já são épicos. Romanceiro de Estácio, Romanceiro do Bequimão, Romanceiro do Contestado, Romanceiro de Anita e Garibaldi, Romanceiro do Aleijadinho, Romanceiro da Abolição, Memorial de Rondon, etc.
Minha obra geral tem três vertentes: uma subjetiva, inteiramente lírica; outra épica (predominando no Projeto Brasil) e uma terceira, dedicada a líricas românticas.
Há quem me situe, também, numa corrente chamada de neotrovadorismo. Ou seja: a revalidação do espírito trovador na poética de hoje, como assinala essa mestra notável Maria do Amparo Tavares Maleval.
Juntar o erudito ao popular é uma das diretrizes do seu fazer poético?
Sim. Sou devota do gênio Câmara Cascudo. De mais a mais, temos no Brasil um folclore riquíssimo, perfeitamente adequado ao gênero canta-e-conta, de meus vários cancioneiros.
Quantas vezes, desde menina, eu ia procurar, conhecer, anotar in loco o que os colonos da fazenda ou do interior de outros estados me contavam. Conferir a História, até.
Para o leitor, a dimensão social marca a linha do seu trabalho literário. Você confirma?
Alguém pode ser feliz vendo tanta gente injustiçada e desvalida no mundo? Literatura talvez ajude, se solidária. Desde garota me interesso pela cultura de nossos ignorados índios e nossos esquecidos negros. Ultimamente escrevi sobre os ciganos (e pensar que os nazistas exterminaram meio milhão deles!).
Qual o seu envolvimento com as questões feministas?
Fico sempre orgulhosa quando as mulheres brilham (e como têm brilhado!), sobretudo em concursos. O “Prêmio Alejandro J. Cabassa”, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro é só para livros escritos por mulheres nos vários gêneros literários. Livros que as têm revelado de norte a sul, de leste a oeste, há quinze anos, já.
Quando meu marido morreu – ele que empreendia a luta das mulheres na vida – a diretoria da UBE/ RJ me concedeu o gratíssimo privilégio de escolher um concurso com o nome de Alejandro. Pensei logo nas mulheres. Aliás, quando ganhei com Geolírica o “Prêmio Porta de Livraria / Instituto Nacional do Mate”, meu querido Manuel Bandeira (além de Cassiano Ricardo e Drummond de Andrade) membro do júri, disse: — Bravo, Stella! Como você está escrevendo bem! Pensei que você fosse o Suassuna, ou o João Cabral de Melo Neto. Você está escrevendo feito um homem!
Só homem escreve bem?
De onde vem seu interesse pelas líricas românicas?
De um justíssimo orgulho pela latinidade. Ademais sou latina, apesar de misturada com grego e inglês. Outra coisa: filologia me fascina. Traduzir me encanta. Seleciono textos românicos arcaicos, traduzo-os e sirvo- me deles criando novos poemas. Textos traduzidos do galaico-português, galego, mirandês, moçárabe, castelhano, catalão, provençal, francês, romanche, italiano, sardo, romeno. Com isso já tenho um alentado cancionário neolatino.
Entre os vários projetos que você realiza, o que é o Projeto Brasil?
Uma sinfonia, uma espécie de mural onde cada romanceiro, ou cancioneiro, ou rapsódia, se inspira em vultos brasileiros ou tradições nossas. É obra de uma vida, creia.
Como você analisa a diversidade de gêneros em suas obras?
Sabe que nunca analisei? Diversidade. Talvez porque eu goste de gente, me interesse pela vida, ame todas as formas de arte: escultura, pintura, música, mímicos, palhaços, teatro de bonecos, teatro para crianças, Shakespeare, Gil Vicente, teses criativas, mitos, lendas, “causos”, estórias de todo tipo (inventadas ou da tradição oral).
Minha melhor surpresa em criança foi a descoberta do gavetão de vovô, cheio de livros infantis que ele nos lia. Tive essa sorte fantástica, maravilhosa mesmo: avós e pais contadores e inventores de estórias.
MEUS ONZE ANOS
Em criança nós brincávamos lá em casa folcloricamente, contando os botões de todas as blusas, camisas, casacos, paletós:
“Rei,/ capitão,/ soldado,/ ladrão,/ moço bonito,/ do meu coração.”
Bem pequena ainda (com quantos anos, ignoro. Uns sete? Ou oito?) cansei do estribilho e criei outro:
“Não foi rei,/ não foi soldado,/ também não foi capitão./ Foi um ladrão/ namorado/ quem roubou/ meu coração”
E todos acharam natural aquilo. Era a genética. Havia vários poetas e prosadores na família. Desde o velho tetravô, Antônio Vieira dos Santos, o mais antigo historiador do Paraná. E Joaquim Norberto de Souza Silva, polígrafo, ex-presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E meu avô Henry Leonardos, que adaptou Lendas e Contos da Rússia. E Thomas Leonardos, meu primo. E minha mãe, Alice, lançada pela Academia Brasileira de Letras em Ouvindo Estrelas. E tia Leila, autora de O que a velha paineira contou e A lenda da casabranca. E minhas irmãs Sonia e Dicéa, autoras, respectivamente de Modernaturas e Poesia no varal e Precanto. Fora outros parentes. Roberto Leonardos, primo- irmão. Ana Cristina Leonardos, jovem prima autora de poemas.
Sim, é a genética.
Comigo ela se manifestou cedo. Lembro. Mas não sei o que haveria dito ou feito de errado. Minha mãe ficou sentida e eu mais ainda. Como pedir desculpa? Ah, meus onze anos desajeitados e nenhum níquel no porta-níqueis pra comprar um presentinho. O remédio mesmo era escrever. E escrevi. Era noite. Preguei o papel escrito com alfinetes no travesseiro de mamãe. E fui dormir.
Quando ela chegou, leu isto:
Sonhei
Sonhei.
Minh’ alma, triste, vagou:
talvez buscasse o perdão.
E quando tudo dormia
e tudo era solidão
ouvi uma sinfonia
tocante, meu coração.
Veio um bimbalhar de sinos,
veio vindo, veio vindo,
veio vindo de bem longe,
vibrando lá no alto o bronze,
vibrando como se um hino
me abraçasse n’ amplidão.
Ó Senhor! Acaso ouviste?
Tu me deste teu perdão?
Sonhei.
Recordo apenas que fui acordada com um beijo de mamãe.
De olhos molhados e esta frase:
— Já temos poetisa na família.
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