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Jornal Poesia Viva - Número 33

Veja aqui Editorial: Vida urbana
Veja aqui Entrevista: Marco Lucchesi

Veja aqui Contracapa: Ai de ti, Copacabana


Editorial: Vida urbana

As cenas da vida urbana representam o teatro do mundo, aí onde o tempo excede e dele as pessoas, de imediato, não se dão conta seguindo seu próprio ritmo, caminhos indecifráveis para nós outros transeuntes. As cenas da vida urbana mostram nos intervalos a fugacidade da vida sombras asas soltas flores despetaladas coisas no seu desgaste. Hoje tocadas desejadas, amanhã, jogadas fora. Mas nesse tempo e espaço a trajetória da vida humana se instala em redes de trabalho, lazer alegrias e violências que se batem. Espantos e lamentos, o acaso acontece.

Ninguém pode escapar dos apelos para o que se passa em volta. Uma teia invisível entrelaça vitrines e barracas. Buzinas e cigarras. Andanças e paradas. Agressões e romances. Às vezes um poeta lança um olhar para a revoada de pássaros ou um ipê estalando sóis, um olhar para a natureza abafada no cinzento dos arranha-céus, rolos de fumaças e árvores perdidas umas das outras. Vai descobrindo o tempo limando as horas e o enigma misterioso da existência que transcende o corre-corre do dia-a-dia, de modo tão febril, que poucos param a fim de descobrir o modo de decifrá-lo. De olhos vedados muitos nem percebem que o destino pode quebrar os nós e fechar as portas a qualquer esquina.

Mas o poeta no jogo das cenas percebe que o homem não existe sozinho na estratosfera dos sonhos, acha-se ligado à trama no fio da tessitura, embora desconhecido. E se assume autor de peça de teatro onde não há diretor nem equipe de apoio, somente cenário. O poeta inventa palavras cantos sentidos ritos para os enredos, sabendo, todavia, os ventos fugazes irão desfazer até os poemas.


Rio de Novo, de Armando Freitas Filho

Poesias

O SOLITÁRIO GESTO DE VIVER

O solitário gesto de viver
não demanda a coragem que há na faca,
na ponta do punhal e até no grito
de quem fala mais alto e está coberto
de razões, de certezas, de verdades.
O gesto de viver se oculta em dobras
tão íntimas do ser, que o desfazê-las
é mais que indelicado, é violência
que nem sequer se pode conceber.
O gesto de viver é só coragem,
mas, de tal forma próprio e incomparável,
que não se exprime em verbo, imagem,
                                           mímica
ou qualquer outra forma conhecida
de contar, definir ou explicar.
A coragem no gesto de viver
está em coisas simples, por exemplo,
na diária decisão de levantar.
E mais, em se vestir e trabalhar
por entre espadas, punhos e navalhas,
peito aberto, sem armas, passo firme,
e à noite, ainda intato, regressar.

Reynaldo Valinho Alvarez

Jornal Poesia Viva

GESTA

I
o Cavaleiro Negro com seus pulmões negros
e diante o silêncio à beira do bosque

este
      senhor de nychterinas romarias
      uma sua

     íris leitosa de lua
onde as concubinas cantavam

     entre o grão e o grão

     sobre um
dragão lilás com flancos de prata
o joelho fibroso no caroço da pedra

Márcio André

Jornal Poesia Viva

O BECO
a Carlos Drummond de Andrade

Segunda-feira, 2 de outubro de 2006

as dobras-da-mão carregam caminhos (nas avenidas)
                                               seguimos imagens
o outdoor no alto do prédio contagia
– inventa um celular nas nuvens –
o silêncio cada vez mais raro
adolescentes morrem e matam nas
                                               árvores-madrugadas

chove, brisa fresca do início
da primavera na cena
(já vista), pois o olhar fixa
aquela água virada
de alguma estagnação
os raios no espaço névoa se descolam
Rio de Janeiro em preto-e-branco
Ela grita ao celular
palavras que provocam
:
alguma coisa
não se encontra

Solange Rebuzzi


Que se passa naquele beco
onde nunca estive?
Vislumbro o muro de passagem:
sombras, manchas, rastros
de existência.

Quem o habita, se é que o habita
alguém, se é que o beco
existe como existem
seres e coisas que vejo?

Quem derrama nesse recanto do uni- verso
o sinal de vida, a marca indelével
da matéria organizada?

O que existe fora do meu
alcance de vista? Quem brinca
de esconder quando relembro
o muro caiado, a rua esquecida?

O que não vejo, pressinto:
existe mesmo ou é extinto
para mim, ignorado
como esse beco aonde nunca fui?

Fernando Py


Jornal Poesia Viva

FAVELA OU POR QUE A POLÍCIA NÃO APARECEU

caminho da vida
o caminho da morte

o mesmo
salto no abismo
o mesmo
olhar sem ternura

nas vielas escuras
os passos desviam-se
somente

cinco inocentes mortos
oito pessoas feridas

e um churrasco regado a cerveja
                                   e samba

Marília Amaral

Jornal Poesia Viva

ALIENAÇÃO

O viaduto era a sua casa.
Do viaduto, ele tudo via.

Via tudo: o luxo dos ricos
e o lixo dos pobres.

Fama\casa\carro.
Fome fodida\coisa\curra.

Pobre, corra da fome.
Fuja da coisa fundida!

Fundida em lixo, restos e ratos.
Fodida em doença e desespero.

Pobre, curre a fama e a riqueza!
Cobre caro a fome!

Não foge, não curra e não corre,
pois só os ricos correm em seus carros.

Por cima do viaduto, eles correm
e não sabem de suas entranhas.

Viaduto: casa estranha,
entranha pobre e podre.

Do viaduto, ele tudo via.
Todavia, só via.
                    Sem luta.

Laura Esteves

Jornal Poesia Viva

Sol indo embora nuvens de chumbo
no ônibus Náuseas cheiro ácido suor
amônia álcool sangue pisado pingos
do dia tiritante lida Náuseas me
acomodo pé suspenso no ar ombro a
ombro troncos encostos toques maus
pensamentos Náuseas solavancos
trancos balanços paradas entrecortes
gente saindo entrando empurrões
cotoveladas suspiros estalidos crianças
zumbindo guinchos batidas hip-hop
Náuseas cabeças fixas olhos giratórios
ar sufocativo motorista invisível
toco a estridente campainha ele nem
se liga

Leda Miranda Hühne

Jornal Poesia Viva

FEBRE

os arcos da lapa
                 ardem de febre
é ­– ardem
junto a eles as moças-de-boa-família
                 ardem de febre
os bondes-de-teresa sobrevoando
                 ardem de febre
cães e postes dualidade inseparável
                 ardem de febre
as ratazanas que atazanam os hot-dogs
                 ardem de febre
(cebolas e pimentões também)
os holofotes imaginários desse palco
                 ardem de febre
é – ardem
a poesia espreita pelas esquinas
elas?
                 ardem de febre
e eu nesse semáforo quebrado
espero e espero o frio passar
é – espero...

Sérgio Gerônimo

Jornal Poesia Viva

DE CHÃO E DE ESTRELAS

Faço do asfalto a cama
Das folhas o meu travesseiro
Da chuva um choro vermelho
                 de barro e de telha
Faço do chão o meu berço
e me cubro com a chama das velas
                 na falta de estrelas

Elisa Flores

Jornal Poesia Viva

MEM DE SÁ COM GOMES FREIRE

Paulo, codinome Kelly Lee.
De Ubá, o teimoso sotaque – “uai!”.
Pensa na mãe morta, lembra do pai,
E, no trottoir noturno, sorri.

Lembra do pai, que a pôs para fora,
dos irmãos, que lhe viraram a cara.
Mas sorri, por hábito, e, coisa rara!,
uma lágrima escapa-lhe, agora.

Ubá é tão longe, a infância perdida...
E tudo, ali, parece inverossímil!
A lágrima sai negra, do rímel:
“Pior que a morte, só mesmo a vida!”

Kelly - e seu troféu é o codinome!,
exibe, quase nu, seu belo corpo.
Paulo morreu pra sempre, está morto,
afogado em litros de silicone!

Mas algo dele resiste nela,
bem ali, em plena Mem de Sá!
Talvez um velho sonho ou, quiçá,
sua morta mãe, que, por ela, vela.

Ricardo Thomé

Jornal Poesia Viva

 

uma anticidade não é uma cidade
ao avesso.
anticidade não é desenho
ideal
superposto à linha real
do rosto.
nem o após-equívoco, arco-íris
de borco
(oco da fratura, orco).
a não-cidade confina com o excesso
sem tinta
gesto sem flor
perfume no vácuo.
espaço vivo do amorfo
mais para um esqueleto de luz
a pino luzindo
dentro do poço.
morto na carne do moço.
labirinto
detrás do osso.

Afonso Henriques Neto

 

Jornal Poesia Viva

A MOÇA NA PRAÇA

O vento atravessa
            a praça
um raio rompe
            a carcaça
da negra nuvem
            que se esgarça
e a paisagem
            se embaça
Mãos se abandonam
            sem graça
coração se
            despedaça
a moça chora
            e disfarça
lágrimas de chuva
            inundam a praça

Silvio Ribeiro de Castro

Jornal Poesia Viva

ÉCLOGA

Tantos metais na cidade,
monóxido de carbono,
gás neon, não te poluem.

Raízes e folhas vivem
ao teu corpo aderidas
e a água é teu disfarce,
tua sócia e sósia, ilha.

Para tal realeza agreste
reinventas com teu corpo,
na cidade, a floresta
amazônida.

Olga Savary

Jornal Poesia Viva

CHOPE

          Sapias, uina liques.
          HORÁCIO

O ouro da tarde
                  cai

sobre o copo de
                  chope:

espuma e fres-
                  cor

rolando no solo
                  seco

da         garganta.

Eu bebo a vida
                  só

como quem de-
                  canta.

Adriano Spínola

Jornal Poesia Viva

A ESTÁTUA

          No mar estava escrita uma cidade.
          Carlos Drummond de Andrade

Ser estátua
não é pedido que se faça.
E ele nem pediu.

No banco de pedra, de costas pro mar,
pensa a cidade.
Acolhe pombos e aves agourentas.

No meio-dia branco de luz,
o menino permanece sozinho.
O homem atrás dos óculos
quer a sombra de amendoeiras.
Tem oitenta por cento de ferro na alma.
Cem por cento de bronze na eternidade.

Alguns anos viveu no Rio de Janeiro,
serviu à cidade
que agora de nada lhe serve.

Ao povo sem memória,
a história mais bonita,
comprida história que não acaba mais.

Augusto Sérgio Bastos

 

 Jornal  Poesia Viva 33

Capa do Jornal Poesia Viva número 33

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