Poesias
O SOLITÁRIO GESTO DE VIVER
O solitário gesto de viver
não demanda a coragem que há na faca,
na ponta do punhal e até no grito
de quem fala mais alto e está coberto
de razões, de certezas, de verdades.
O gesto de viver se oculta em dobras
tão íntimas do ser, que o desfazê-las
é mais que indelicado, é violência
que nem sequer se pode conceber.
O gesto de viver é só coragem,
mas, de tal forma próprio e incomparável,
que não se exprime em verbo, imagem,
mímica
ou qualquer outra forma conhecida
de contar, definir ou explicar.
A coragem no gesto de viver
está em coisas simples, por exemplo,
na diária decisão de levantar.
E mais, em se vestir e trabalhar
por entre espadas, punhos e navalhas,
peito aberto, sem armas, passo firme,
e à noite, ainda intato, regressar.
Reynaldo Valinho Alvarez

GESTA
I
o Cavaleiro Negro com seus pulmões negros
e diante o silêncio à beira do bosque
este
senhor de nychterinas romarias
uma sua
íris leitosa de lua
onde as concubinas cantavam
entre o grão e o grão
sobre um
dragão lilás com flancos de prata
o joelho fibroso no caroço da pedra
Márcio André

O BECO
a Carlos Drummond de Andrade
Segunda-feira, 2 de outubro de 2006
as dobras-da-mão carregam caminhos (nas avenidas)
seguimos imagens
o outdoor no alto do prédio contagia
– inventa um celular nas nuvens –
o silêncio cada vez mais raro
adolescentes morrem e matam nas
árvores-madrugadas
chove, brisa fresca do início
da primavera na cena
(já vista), pois o olhar fixa
aquela água virada
de alguma estagnação
os raios no espaço névoa se descolam
Rio de Janeiro em preto-e-branco
Ela grita ao celular
palavras que provocam
:
alguma coisa
não se encontra
Solange Rebuzzi
Que se passa naquele beco
onde nunca estive?
Vislumbro o muro de passagem:
sombras, manchas, rastros
de existência.
Quem o habita, se é que o habita
alguém, se é que o beco
existe como existem
seres e coisas que vejo?
Quem derrama nesse recanto do uni- verso
o sinal de vida, a marca indelével
da matéria organizada?
O que existe fora do meu
alcance de vista? Quem brinca
de esconder quando relembro
o muro caiado, a rua esquecida?
O que não vejo, pressinto:
existe mesmo ou é extinto
para mim, ignorado
como esse beco aonde nunca fui?
Fernando Py

FAVELA OU POR QUE A POLÍCIA NÃO APARECEU
caminho da vida
o caminho da morte
o mesmo
salto no abismo
o mesmo
olhar sem ternura
nas vielas escuras
os passos desviam-se
somente
cinco inocentes mortos
oito pessoas feridas
e um churrasco regado a cerveja
e samba
Marília Amaral

ALIENAÇÃO
O viaduto era a sua casa.
Do viaduto, ele tudo via.
Via tudo: o luxo dos ricos
e o lixo dos pobres.
Fama\casa\carro.
Fome fodida\coisa\curra.
Pobre, corra da fome.
Fuja da coisa fundida!
Fundida em lixo, restos e ratos.
Fodida em doença e desespero.
Pobre, curre a fama e a riqueza!
Cobre caro a fome!
Não foge, não curra e não corre,
pois só os ricos correm em seus carros.
Por cima do viaduto, eles correm
e não sabem de suas entranhas.
Viaduto: casa estranha,
entranha pobre e podre.
Do viaduto, ele tudo via.
Todavia, só via.
Sem luta.
Laura Esteves

Sol indo embora nuvens de chumbo
no ônibus Náuseas cheiro ácido suor
amônia álcool sangue pisado pingos
do dia tiritante lida Náuseas me
acomodo pé suspenso no ar ombro a
ombro troncos encostos toques maus
pensamentos Náuseas solavancos
trancos balanços paradas entrecortes
gente saindo entrando empurrões
cotoveladas suspiros estalidos crianças
zumbindo guinchos batidas hip-hop
Náuseas cabeças fixas olhos giratórios
ar sufocativo motorista invisível
toco a estridente campainha ele nem
se liga
Leda Miranda Hühne

FEBRE
os arcos da lapa
ardem de febre
é – ardem
junto a eles as moças-de-boa-família
ardem de febre
os bondes-de-teresa sobrevoando
ardem de febre
cães e postes dualidade inseparável
ardem de febre
as ratazanas que atazanam os hot-dogs
ardem de febre
(cebolas e pimentões também)
os holofotes imaginários desse palco
ardem de febre
é – ardem
a poesia espreita pelas esquinas
elas?
ardem de febre
e eu nesse semáforo quebrado
espero e espero o frio passar
é – espero...
Sérgio Gerônimo

DE CHÃO E DE ESTRELAS
Faço do asfalto a cama
Das folhas o meu travesseiro
Da chuva um choro vermelho
de barro e de telha
Faço do chão o meu berço
e me cubro com a chama das velas
na falta de estrelas
Elisa Flores

MEM DE SÁ COM GOMES FREIRE
Paulo, codinome Kelly Lee.
De Ubá, o teimoso sotaque – “uai!”.
Pensa na mãe morta, lembra do pai,
E, no trottoir noturno, sorri.
Lembra do pai, que a pôs para fora,
dos irmãos, que lhe viraram a cara.
Mas sorri, por hábito, e, coisa rara!,
uma lágrima escapa-lhe, agora.
Ubá é tão longe, a infância perdida...
E tudo, ali, parece inverossímil!
A lágrima sai negra, do rímel:
“Pior que a morte, só mesmo a vida!”
Kelly - e seu troféu é o codinome!,
exibe, quase nu, seu belo corpo.
Paulo morreu pra sempre, está morto,
afogado em litros de silicone!
Mas algo dele resiste nela,
bem ali, em plena Mem de Sá!
Talvez um velho sonho ou, quiçá,
sua morta mãe, que, por ela, vela.
Ricardo Thomé

uma anticidade não é uma cidade
ao avesso.
anticidade não é desenho
ideal
superposto à linha real
do rosto.
nem o após-equívoco, arco-íris
de borco
(oco da fratura, orco).
a não-cidade confina com o excesso
sem tinta
gesto sem flor
perfume no vácuo.
espaço vivo do amorfo
mais para um esqueleto de luz
a pino luzindo
dentro do poço.
morto na carne do moço.
labirinto
detrás do osso.
Afonso Henriques Neto

A MOÇA NA PRAÇA
O vento atravessa
a praça
um raio rompe
a carcaça
da negra nuvem
que se esgarça
e a paisagem
se embaça
Mãos se abandonam
sem graça
coração se
despedaça
a moça chora
e disfarça
lágrimas de chuva
inundam a praça
Silvio Ribeiro de Castro

ÉCLOGA
Tantos metais na cidade,
monóxido de carbono,
gás neon, não te poluem.
Raízes e folhas vivem
ao teu corpo aderidas
e a água é teu disfarce,
tua sócia e sósia, ilha.
Para tal realeza agreste
reinventas com teu corpo,
na cidade, a floresta
amazônida.
Olga Savary

CHOPE
Sapias, uina liques.
HORÁCIO
O ouro da tarde
cai
sobre o copo de
chope:
espuma e fres-
cor
rolando no solo
seco
da garganta.
Eu bebo a vida
só
como quem de-
canta.
Adriano Spínola

A ESTÁTUA
No mar estava escrita uma cidade.
Carlos Drummond de Andrade
Ser estátua
não é pedido que se faça.
E ele nem pediu.
No banco de pedra, de costas pro mar,
pensa a cidade.
Acolhe pombos e aves agourentas.
No meio-dia branco de luz,
o menino permanece sozinho.
O homem atrás dos óculos
quer a sombra de amendoeiras.
Tem oitenta por cento de ferro na alma.
Cem por cento de bronze na eternidade.
Alguns anos viveu no Rio de Janeiro,
serviu à cidade
que agora de nada lhe serve.
Ao povo sem memória,
a história mais bonita,
comprida história que não acaba mais.
Augusto Sérgio Bastos |