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| Jornal Poesia Viva - Número 33
Entrevista: Marco Lucchesi
As raízes deitam no solo brasileiro. Nele demoram e se entrelaçam. Sou antes de mais nada um leitor. Assim me defino sempre e em todos os quadrantes. Um leitor voraz. Marcado de livros. Ferido de livros. Desde a madrugada. No silêncio. Sob os raios de alguma estrela. As estrelas que tanto amo. Até o cair da tarde. Quando a hora é outra é a de silenciar. Minhas raízes? Um trabalho de anos silenciosos, à sombra de uma árvore que me alimenta. Não sei bem como explicar minhas raízes senão por uma vasta paixão de ler. O que deu origem à sua formação de tradutor? A tradução. Traduzi muito. Ou então desde cedo. E coisas difíceis, em muitas línguas. Mas a tradução sempre me foi dura. Um pesadelo. Um suplício. É que desde muito jovem senti o fascínio das línguas. E aprendi não poucas. E queria me comunicar. E beber a água pura das fontes e mananciais literários das línguas. Buscando normas. Horizontes. Sonoridades. Gosto das línguas. Como da música. Como da astronomia. Se não são estas as minhas raízes, são a minha árvore proibida. A sua nova obra poética Meridiano Celeste & Bestiário... São dois livros num só movimento. Falo do céu. Mas também dos bichos. E das coisas que vejo. E que me emocionam. É um livro menos detido do que Sphera. Tenho agora uma dimensão mais forte do corpo. A música do corpo. E sua possível severidade. E harmonia. Ou antes: transparência. O seu livro A memória de Ulisses... É um livro de ensaios, onde realizo uma cartografia das paixões literárias que me estimulam e que me assombram. Dante. Cervantes. Drummond. Joaquim Cardozo. O Brasil e o mundo. A ilha de Ulisses, como a demanda necessária para a literatura. Uma ilha por habitar. Uma ilha por ser inventada. Achada? Jamais. Na atualidade, a relação cultura popular e erudita vivem em contradição? A obra de arte inspirada não leva em termos qualquer tipo de contradição. Mas nem tampouco mistificação. A resposta precisava ser ampla. Mas dou um exemplo. Eu tinha meus quinze anos. Estava no Recife. No apartamento de Cussy de Almeida. Compositor. Íntimo de seu violino Stradivarius. O maestro não estava sozinho. Havia um homem rude e suave, ao mesmo tempo: Luis Gonzaga. Aí está a medida de um conflito zero!! Você que conhece bem a cultura árabe, em especial, a poesia, que leitura faz hoje da situação política internacional? A paz. A paz antes de tudo. Tenho falado tanto sobre as reversões da barbárie em tempos cruéis como os nossos. Mas não será este o lugar de insistir na máquina de paz da literatura? A possibilidade do diálogo como eu a vejo nos poetas Daruish e Adonis. Mas sobretudo do grande poeta persa, Rûmî, que fala de um sentimento profundo de concórdia e adesão. Esta a minha casa. E sempre a partir do Brasil. E de seus tantos desafios. O que você tem a falar da expressão da Drª Nise da Silveira “descarrilhamentos da direção lógica do pensar” em relação à arte e à poesia? De Nise, sempre e tanto a dizer. Mas nesse caso a demanda de um pensamento aberto e largamente emocionado. A força cabal da intuição. Da geometria e da intuição. Gosto de lembrar do matemático Hardy, quando diz que a primeira prova da beleza é a matemática... |
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