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Jornal Poesia Viva - Número 24

Entrevista com Waly Salomão (1)

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A equipe da Editora Uapê presta uma homenagem ao grande poeta falecido recentemente publicando esta entrevista exclusiva, marcada pelo temperamento passional do artista, que respirava e exalava poesia a cada palavra que articulava.

Dividido em quatro partes, o depoimento foi em parte publicado no Número 24 do Jornal Poesia Viva. A última parte é inédita.

 

Como surgiu o poeta Waly Salomão?

Sempre tive esse sonho. Quando estava na escola primária, pedi a minha mãe um bolo de aniversário em forma de livro. Desde que me entendo por gente já me entendo traça de livro. Na mudança da infância para a adolescência ia diariamente à biblioteca de Jequié. Minha irmã falou que hoje a biblioteca é muito ruim porque muitos livros foram roubados.

Tenho cadernos – claro que ridículos – do tempo de adolescente em que fazia pequenas resenhas de filmes e livros. Eu lia muito, era comum na minha família, minha mãe sempre leu muito — hoje está com problema de vista. Ela diz que é uma espécie de ética, de caldo cultural.

Minha mãe conversava sobre “Guerra e paz,” de Tolstói com os filhos mais velhos, uma irmã e um irmão, como se discute novela de TV, com paixão, com intensidade. Quando saiu “Gabriela Cravo e Canela,” lá em casa tinha três volumes. É um livro maravilhoso. Portanto eu era traça de livro, roía livro. Leio até hoje sem parar.

Nesse náufrago que você se declara, a poesia é âncora, de que modo ela se manifesta no seu dia-a-dia?

Se não tiver acesso ao computador escrevo em caderno, em guardanapo de restaurante ou até mesmo no talão que o garçom anota as despesas.

Eu me sinto miscigenado – já que sou filho de uma sertaneja com sírio, mas sou também mixigenado nas técnicas de poesia. Para mim não é só um veio literário, tem outros registros em que estou antenado, que me dizem coisas sobre o mundo e compõem minha poesia. Por exemplo, cinema: Godard, Roberto Rosselini, Eisenstein, Glauber, Julio Bressane, Rogério Sganzerla, John Ford, Fritz Lang. Ou teatro de Brecht. São diferentes coisas que eu pego, jornal, por exemplo.

Eu tinha uma visão muito copiada, macaqueada de Baudelaire. Repetia muito uma frase dele: o jornal como tecido de horrores. O jornal pode ser inspirador. Tenho poemas novos, ainda não publicados, que foram a partir de jornal. Um, chamado “Saques,” foi a partir de uma matéria da “Folha de São Paulo”. Vou misturando coisas. Vi no cinema caras saindo de um supermercado, numa situação semelhante a do incêndio que teve há pouco tempo no Ceasa. Isso me mobilizou muito, as antenas ficaram acesas.

Penso que um poeta vivendo nos tempos de hoje tem que estar atento a essas coisas. Então, vi um homem puxando um carro de tração humana com um bocado de coisas que acabava de saquear – em vez de um burro, ou coisa assim, era ele que puxava. Eu me lembrei de um filme japonês chamado “O homem do riquixá”. Parte 2 >>

Waly Salomão

Entrevista com Waly Salomão (Jornal Poesia Viva 24)

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Eu me sinto miscigenado – já que sou filho de uma sertaneja com sírio, mas sou também mixigenado nas técnicas de poesia. Para mim não é só um veio literário, tem outros registros em que estou antenado, que me dizem coisas sobre o mundo e compõem minha poesia.

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