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Index >> Jornal Poesia Viva >> Entrevista com Waly Salomão - Parte 3
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Jornal Poesia Viva - Número 24

Entrevista com Waly Salomão (3)

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Na sua experiência de poeta e letrista, que diferenças estabelece com relação à mídia e ao mercado?

Eu não equiparo letra de música e poesia. Aliás, eu sempre tentava um ardil: a letra anteceder à música, numa espécie de altivez do poeta. A afirmação do escrito, para que alguém – João Bosco, Caetano Veloso, Lulu Santos, Gilberto Gil, Jards Macalé, Moraes Moreira, Adriana Calcanhoto - rebolasse para transformar em música o que eu havia escrito.

Por sorte minha, deste último livro, Adriana musicou Remix “século vinte”. Somos amigos, mas se estou fazendo um poema e Adriana me pede e lhe mando por fax, depois eu prossigo o poema. Em relação à Fábrica do poema, que está em Algaravias, as pessoas me dizem: “Adriana não musicou esse trecho”. E eu: “Ela musicou o que eu mandei”. Por afirmação como autor, eu aumentei o poema. O poema é meu, então prossigo. Acho a hegemonia da música popular muito grande na cultura brasileira. O espaço exagerado ofusca outras áreas.

Quando lancei Tarifa de embarque Caetano, Veloso estava fora do Brasil e ao chegar deixou um recado na secretária eletrônica: Adorei seu livro, achei que você atingiu a maturidade. Gosto bastante de Janela de Marinetti, Estética da recepção, Cobra coral, pretendo musicar um desses poemas. Para minha sorte, ele pegou um poema já publicado em livro, musicou e colocou em disco. É bom porque falta ao poeta a figura do mecenas, faltam programas de compras de livros do Ministério da Cultura ou das Secretarias Estaduais e Municipais.

A maioria das pessoas sente quase como ofensa comprar livro de poesia. As pessoas têm esse vício, querem tudo de graça. Parece que o poeta vive de brisa. Um diretor de uma poderosa estatal queria me conhecer porque gostava de minha poesia. Gosto de conversar com diferentes pessoas, não apenas com intelectuais ou artistas, para captar o exterior do métier, do ofício. Esse engenheiro, muito simpático e interessante, ficou espantadíssimo em saber que eu tinha dificuldades financeiras. Ele, a princípio, chegou a me mandar por e-mail, um texto onde satirizava o fato de o poeta ter que pagar dentista, colégio de filhos etc.

No dia seguinte me ligou e tive coragem de defender minhas posições num tom bem forte, mantendo porém a cordialidade: você tem emprego regular, fundo de garantia, tem toda essa rede para se salvar. Eu me formei em Direito e quando minha família estava pensando em abrir escritório, me dar carro, vi que aquilo era uma armadilha para a acomodação. Melhor, temi tudo isso e saí da Bahia para o sul, chutando o balde da formação de Direito. Eu quis romper com tudo isso.

Em março deste ano aceitei uma palestra em Salvador, acabei dizendo para o pessoal de lá que era espetáculo espectral, eu estava vendo fantasmas. Parecia um filme pré-Glauber Rocha, fotogramas de Terra em Transe. A província ficou enraivecida comigo. São os preços que temos de pagar. Sem querer ser homem-bomba ou mártir. Escolhi isso. Não estou me lamentando apesar das dificuldades materiais. Não me sinto realizado, mas realizando-me. Realizado parece que está deitado sobre louros. Aliás, nos últimos poemas, dou um pau nos intelectuais provincianos e até brinco. Quando era garoto a gente recitava muito Coroai-me, em verdade, de rosas, de Fernando Pessoa. Acho que na província na vida medíocre das ações locais virou “coroados de louros”.

Não é que eu não goste de leitores, que Algaravias tenha ganhado o prêmio Jabuti e o prêmio Alphonsus de Guimaraens. Tenho orgulho disso, mas orgulho é coisa que ajuda à produção ser mais fecunda, só nesse sentido. Não para deitar na rede, na cama. Eu estou por fazer. Meu próprio círculo de leitores, não dou por conquistado de antemão. Tenho esse modo de lutar contra a felicidade, a inércia.

Se uma pessoa me dá um retorno e descobre até significados inusitados, isso é rico para mim. Me move, me dá gás. Agora, estou longe de ter atingido a culminância, de deitar sobre louros. Numa palestra sobre os anos 70, no ano passado, não escrevi nada de antemão, fui de peito aberto. Primeiro falou um sociólogo, Carlos Alberto Messeder, que tem um livro Retratos de Época sobre a poesia desse tempo. Dei o nome ao meu papo de contra-discurso. Disse que o que eu fazia eram tentativas e que o melhor de mim – se um dia brotasse – ainda seria adiante. Para desfazer o mito paralisador, medusador. Você olha para trás como a mulher de Ló e se petrifica, se torna mármore. Parte 4 >>

Waly Salomão

Entrevista com Waly Salomão (Jornal Poesia Viva 24)

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Para mim, a função do poeta é pegar velhas palavras e dar um sopro de atualidade. Ou acentuar sua marca de origem.

 

 

 

 

 

 

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A leitura alheia, para mim, é mais forte do que a minha. A minha é o diálogo comigo mesmo, é autofágico, vazio. Tem de haver a contrapartida do leitor, de outra pessoa, de grupos de poetas.