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Index >> Jornal Poesia Viva >> Entrevista com Waly Salomão - Parte 3
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Jornal Poesia Viva - Número 24

Entrevista com Waly Salomão (3)

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Que leitura você faz hoje do Tropicalismo?

Eu não me incluo. Saiu o livro de um jornalista, Carlos Callado, que teve a gentileza de ligar repetidamente para mim. Fui muito taxativo: Não tem entrevista, não sinto que participei do Tropicalismo.

Reconheço que foi um movimento bem rico, fecundo, só comparável à Semana de Arte Moderna. Vocês podem ver meu exagero, meu hiperbolismo. Foi como um prato quente, que a gente come e queima a língua. Morei com Caetano e Dedé em São Paulo, no auge do Tropicalismo. Presenciei a prisão de Caetano e de Gil. Foi Hélio Oiticica junto a Rogério Duarte, o grande caos, quem inventou a Tropicália – deu o timbre, a marca do movimento. Foi o interlocutor mais importante de minha vida.

Fiz o livro de Torquato Neto, Últimos dias de Paupéria. Não há nenhum texto de Torquato com esse nome. Conversando com ele num bar do Leblon, ele disse que tinha um plano de fazer um filme com esse título. Não deixou nada escrito, mas achei que era o melhor nome para a coletânea. Fiz o livro no sentido de ser um alimento para as novas gerações; para seu trabalho não se perder.

Eu e Marta inventamos uma editora chamada “Pedra que ronca” e propus ao Caetano reunir os artigos do “Pasquim” que escreveu no exílio. Botei o nome de Caetanave. Juntei também os textos de Hélio Oiticica. Num diário em que ele falava assim: Aspiro ao grande labirinto usei como título do livro. Posteriormente tive o auxílio de Lígia Pape e de Luciano Figueiredo. Eles me ajudaram como interlocutores do discurso. Quem começou o trabalho fui eu e um poeta que já morreu, Luís Otávio Pimentel.

Acredita que a poesia tenha função transformadora?

É alguma das funções. Eu sempre tenho medo de pomposidade. Acho que a função da poesia não pré-existe ao que você vai fazendo no mundo. O que não se pode aceitar é um mundo constituído e anti-poético e o poeta ficar em um nicho. Tem que abrir brechas, mixigenar. Mesmo que volte para casa como um animal abatido, “um animal ferido”, sem reciprocidade, sem retorno, sem nada. Você tem que continuar batendo nos diversos lugares. Tem que ser corajoso e estar sempre experimentando.

Alexei Bueno fez um artigo sobre o livro Tarifa de embarque onde falava que eu era um dos poetas brasileiros que restaurava o esplendor de palavras consideradas ultrapassadas. Para mim, a função do poeta é pegar velhas palavras e dar um sopro de atualidade. Ou acentuar sua marca de origem. No caso de “Tarifa” é isso, é uma palavra árabe. O português é riquíssimo, não é uma língua una, monolítica. O português do Brasil são muitas camadas, é um palimpsesto. São muitas camadas superpostas de línguas: latim, grego,tupi-guarani, banto, yorubá, árabe, os francesismos, os anglicismos, as gírias. Tem que ter essa generosidade, não podemos ser xenófobos.

Um deputado do PC do B, Aldo Rebelo, queria proibir palavras de língua inglesa. A língua inglesa, a língua do império, principalmente na época da Internet, é forte porque não tem medo de incorporar. Francesismos, latinismos, tudo tem no inglês.

Tarifa é uma palavra do árabe, que até hoje está muito presente na língua original; ambas se assemelham graficamente. “Lábia” lembra Padre Antonio Vieira que galvanizou a cidade da Bahia, na época em que esta cidade tinha densidade. O outro foi Gregório de Mattos. A propósito, será lançado neste semestre um filme sobre ele, de Ana Carolina em que faço o papel-título.


Você concorda que “Pastoral Brasiliana”, do livro Tarifa de embarque, é uma ode polifônica a desmantelar o Brasil “da ordem e progresso”? "Às vezes nas gavetas as aposento, volta e meia no pescoço as reapresento: minhas guias de santo. Alguidar, quartinha, gostosa dormência do banho de folhas, e o peji dos orixás na plenitude dos deuses ou no deserto deles".

Encaro isso como afirmação sua de leitura e não posso negar. Ao contrário, fico até contente. O poeta tem que ter humildade. A leitura alheia, para mim, é mais forte do que a minha. A minha é o diálogo comigo mesmo, é autofágico, vazio. Tem de haver a contrapartida do leitor, de outra pessoa, de grupos de poetas. Para entender inteiramente o poeta, enquanto leitor, você tem que ser poeta. Esse é um pressuposto. É o que cria a rarefação do mercado de poesia. << Parte 3

Waly Salomão

Entrevista com Waly Salomão (Jornal Poesia Viva 24)

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"Acho que a função da poesia não pré-existe ao que você vai fazendo no mundo. O que não se pode aceitar é um mundo constituído e anti-poético e o poeta ficar em um nicho. Tem que abrir brechas, mixigenar."

 

 

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" O português do Brasil são muitas camadas, é um palimpsesto. São muitas camadas superpostas de línguas: latim, grego,tupi-guarani, banto, yorubá, árabe, os francesismos, os anglicismos, as gírias. Tem que ter essa generosidade, não podemos ser xenófobos."