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| Jornal Poesia Viva - Número 26
Entrevista com Carlos Nejar (Parte 1) < 1- 2 > Onde o sr. se sente mais em casa, no Rio Grande do Sul onde nasceu, em Portugal onde tanto se descobriu ou no Espírito Santo onde se encontra em intimidade com a natureza ? Há uma frase de Cícero que me toca muito, ele diz assim: o lugar da gente é aonde a gente se sente bem. Em relação ao Rio Grande do Sul, eu tenho um grande amor ressentido, isto é, os gaúchos são bairristas, não admitem que alguém queira sair de lá, embora eu seja embaixador do Rio Grande, título que me deu o próprio governador do Rio Grande do Sul, mas o Rio Grande é aquela frase de Drummond: “Uma fotografia na parede como dói”, eu até diria mais, que me dói muito quando estou lá, porque são toneladas de emoções. Porque eu sou a terra do Rio Grande, nós trazemos a terra em nós, nós somos a nossa terra. Como seria essa relação dos seus livros com a teoria do tempo como invenção? O tempo é invenção humana, depois o homem também se transforma em invenção do tempo. No primeiro momento, é o tempo como invenção do homem, depois o homem fica tão enrolado na sua própria fundação, na sua própria invenção que ele perde a noção de si mesmo e fica todo ele olhando para o tempo. Esse problema da eternidade leva à questão da religião? Você toca num ponto central, eu não sou religioso, mas as pessoas me acham religioso. Para mim religião é a ligação do homem com Deus – religare - , o homem como instrumento entre Deus e os outros homens. Para mim, eu penso como obra do Espírito de Deus, é diferente porque não existe o intermediário, nossa relação tem que ser com o Deus vivo, então é aquilo, por exemplo, que Moisés ouvira e também Josué. Moisés, quando viu a sarça ardendo no deserto, ouviu: Moisés, tira as sandálias dos teus pés porque a terra em que tu pisas é sagrada. Josué ouviu essa mesma frase, a sandália é a intermediária. Nós temos que aprender a ver os sinais, a criatura é cheia de sinais. Há um Deus vivo que fala, só que nós não temos ouvidos para ouvi-lo nem olhos para percebê-lo. Não seria apenas um Deus imanente à natureza. É um Deus que criou a natureza, mas que se comunica conosco. Nós às vezes ouvimos, outras vezes vemos. Há muitos sinais. Há um Deus que fala através de sonhos. Há um Deus que nos ama; então esta terra em que tu pisas fala da figura do Cristo, do Deus vivo. Nós pisamos com os pés na terra, sem sandálias. Não é uma relação direta, não precisamos de intermediários. Deus não é a natureza, Deus é o senhor da natureza. Eu creio, por exemplo, no poder do Espírito Santo, o espírito criador, aquele que nós vemos em João. O Espírito sopra onde quer. A poesia é a centelha desse Espírito porque nós somos criados por aquele que é a Palavra. Nós somos pequenas palavras. Heidegger dizia que a palavra é a casa do ser. A casa do ser é natureza do ser. Nós somos palavra.>> Parte 2 |
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