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Jornal Poesia Viva - Número 27

Entrevista com Augusto Sérgio Bastos

Que caminhos você percorreu até se descobrir como poeta?

Nasci e morei em Campo Grande, subúrbio do Rio, estudando sempre no mesmo colégio. Quando não estava jogando bola, freqüentava a Biblioteca Pública onde lia, levava para casa e decorava os poetas românticos: Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Castro Alves. Queria ser como eles. Gostava também de algumas coisas de Olavo Bilac e Cruz e Sousa. Mas no colégio, lia o Camões obrigatório de cada dia. Aos 13 anos comecei a escrever versos, um ingênuo-aprendiz-romântico. Ainda hoje guardo os cadernos onde cometi meus primeiros poemas.

Comecei a trabalhar numa empresa de construção civil e fui estudar engenharia metalúrgica. Meu pai havia falecido, eu precisava ajudar em casa. E aí me afastei um pouco da Literatura. A leitura voltada para os livros técnicos deixava pouco espaço para a poesia. Durante muitos anos pouco escrevi.

Só no início dos anos 90 vieram as primeiras publicações em jornais e antologias, as oficinas de poesia e a participação em concursos. Em paralelo, o trabalho nas comissões editoriais dos jornais Poesia Viva e panorama deu o suporte para o aperfeiçoamento do espírito crítico, seja no ato de selecionar, nas leituras obrigatórias, na troca de experiências, tudo confluindo para o ato da escrita.

Há ligações entre sua poesia e os lugares onde você tem vivido?

Sou muito influenciado pelo que está ou esteve a minha volta, e muitos poemas falam desses lugares. Por necessidade de trabalho morei em nove cidades de Minas Gerais e São Paulo. O poema "Nem mesmo todo o oceano" trata do tema: ... Em busca de outro canto / deixei palmeiras e sabiá. / Morei em são paulo / em Minas fui viver... (assim mesmo, com "são paulo" em minúsculas).

No Estado do Rio, morei em Campo Grande (minha aldeia), Volta Redonda, Barra do Piraí e Copacabana. No poema "Ai de ti Copacabana!" estão as contradições, o jogo do real com o falso, as ilusões/desilusões, as aparências: ... E a mulata de olhos azuis / cabelos louros e cílios postiços / caminha / É a única coisa verdadeira.

Que autores são referência para a sua poesia?

Creio no santíssimo quarteto: Drummond, Ferreira Gullar, João Cabral e Manuel Bandeira.

Como ocorre o seu processo de criação?

Tento escrever todos os dias, me organizar, mas não consigo. Quando escrevo prosa vou direto ao computador. Para a poesia, o tradicional: lápis, papel e borracha. Depois de trabalhar um pouco no "risque e rabisque", passo para o computador. Mas a coisa acontece sem planejamento. Uma palavra, um filme, um acontecimento de rua - minha janela ajuda bastante -, um quadro, um cheiro, um livro: a emoção, o espanto. Tudo pode disparar o processo. Aquele verso perdido num pedaço de papel, escrito durante a noite... Depois é que são elas, ou ele, o poema. Cabe ao poeta buscar as palavras certas, posicioná-las.

Não existem palavras feias ou proibidas, existem palavras mal acompanhadas. Escrever é trabalhar, retrabalhar.

Gosto de ler o que escrevi, em voz alta. Percebe-se melhor o ritmo, alguma coisa destoando. É muito difícil o poema chegar pronto. Um poema curto, vá lá. Mas em geral não acredito, pelo menos comigo nunca aconteceu. A poesia não é fruto somente da espontaneidade.

Ela resulta da inspiração e da necessidade que o poeta sente de fazer poesia. Depois, vem a técnica, o trabalho, disciplinando aquela emoção. E além disso, de um algo mais - "aquela faísca que tudo ilumina e transforma", como disse o Ivan Junqueira - que até hoje nenhum poeta conseguiu explicar.

Que relação você vê entre a sua obra e a poesia contemporânea?

Entendo a poesia contemporânea como a busca da individualidade. É a democracia fazendo conviver as diversidades, as diferenças, a pluralidade de gêneros e estilos. A intertextualidade é um forte componente da nossa época. Não me refiro à mera repetição, com outras palavras, da idéia contida no texto anterior, mas ao diálogo com os poetas de hoje e com aqueles que nos antecederam. Às vezes eu vou por aí.

O verso livre - rimado ou não - é o mais difundido, mas há muitos poetas fazendo sonetos e se utilizando de outras formas fixas. Às vezes, também vou por aí. Tento viver o tempo atual e isso se reflete no que escrevo.

O poeta é um colecionador?

Qual não coleciona artigos, poemas ou versos - "pedras de toque" - dos poetas que admira? Seja na memória ou em forma de recortes de jornais, revistas, xerox. No meu caso, como em outros, a paixão pelo livro, também nos faz colecionadores. Sou rato de Sebo.

O objeto livro me atrai, assim como o autógrafo, antigas anotações nas margens, as várias edições... Desde menino colecionava figurinhas, estampas do sabonete Eucalol, caixinhas com fósforos, maços de cigarros... Gosto de antiguidades e artes plásticas; tenho alguns quadros, mas não são muitos pois o espaço no apartamento e a situação econômica hoje não permitem.

Qual a influência das artes visuais na sua poesia?

Muitas vezes o poema é a tentativa de capturar as imagens. O poeta olha as coisas como se apresentam e imagina como poderiam ser. Identifico-me com esse múltiplo olhar e a minha poesia acaba, de certa forma, sendo influenciada por ele.

O poeta e crítico de arte Ferreira Gullar disse na introdução do seu livro Relâmpagos: "Toda obra de arte atinge nosso olhar como uma inesperada fulguração, um relâmpago. Atrevi-me algumas vezes a tentar fixar esse relâmpago em palavras".

Também fiz essa tentativa em alguns poemas: "Suite Vollard", série de gravuras eróticas de Picasso; "Casablanca"; "Photographia"; "Desamparo", dedicado a Camille Claudel (... A sombra da loucura / se desfaz nas dobras verdes do bronze...); "Les voyeurs" (... Da janela aberta sobre a madrugada / resta o vinho, as flores, / resta o cansaço. / E este quadro na parede que também me olha).

 

 Jornal  Poesia Viva 27

Poesia Viva 26

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