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Jornal Poesia Viva - Número 27
A Pele
A Viviane Mosé
Retire da palavra antiga a pele suja (a cor é a pele das palavras). Lave com água e sabão, enxágüe - se necessário, use detergente. O que restar, ainda é palavra.
Mas cuidado: a palavra é biodegradável,
não tente usá-la de imediato. Procure outra, semelhante, sinônimo ou coisa assim. Não ceda à tentação de colocá-la na caixinha de um alexandrino. Não lhe faça rima rica ou preciosa - muita calma nessa hora.
Conserve-a
(sem formol ou naftalina). Ela só precisa recobrar os sentidos. Guarde-a no seu coração. Não a relegue ao fundo da gaveta, um dia, antes de cobrir-se de pardos e amarelos, ainda poderá ser útil num verso novo, branco e livre.
Augusto Sérgio Bastos |