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Jornal Poesia Viva - Número 28
Entrevista com Antonio Olinto Qual a influência das viagens em sua vida e obra? Toda viagem influi na mudança de perspectiva de uma pessoa. Quando eu tinha 6 anos, em Ubá, onde nasci, morava em frente à estação da estrada de ferro, vendo o dia todo trem chegando e trem saindo. Esse espetáculo de vinda e partida me fascinava. Uma tia me perguntou o que desejava eu ser no futuro. Respondi logo: "Maquinista de trem". Era quem viajava, saía e voltava, ia ver lugares diferentes, cidades novas. Afinal, não fui maquinista de trem, mas passei a vida viajando, fazendo conferências e dando aulas nos pontos mais longínquos do mundo. Estive em todos os países da Europa, em toda a África Ocidental, nos países norte-americanos, em toda a América Latina; falei na Austrália, no Japão, na China, na Coréia do Sul, em Hong-Kong, no Iran, em Israel. Fui um verdadeiro maquinista de trem. "Na viagem à África aprendi a língua Yorubá, primitiva e muito sonora. Lá desenvolvi a trilogia A Casa da Água, Rei de Keto e Trono de Vidro." Que diferenças estabelece entre o seu processo de criação como prosador e poeta? Como a base de quem escreve é a palavra, o processo de criação no poema e na prosa não é tão diferente. Há, sim, uma diferença no ritmo, no modo como usar as palavras, na cadência da poesia e no escorrer da narrativa, em prosa. "A prosa está em geral presa ao raciocínio e à lógica. Conforme disse Paul Eluard, 'a poesia é cântico', isto é, a poesia canta e tem, por isso mesmo, uma harmonia interna que a lógica também pode ter, mas que não precisa." O que tem representado o jornalismo em sua vida? Fui jornalista a vida inteira. Quando muito jovem, escrevi um livro chamado Jornalismo e Literatura para mostrar que o jornalismo é um gênero literário com suas leis e suas características próprias. "Jornalismo é um tipo de literatura, sob pressão do tempo e do espaço. O jornalista deve ser fiel a si mesmo e a seu tempo." Tendo participado de tantos programas literários na TV, como vê hoje o papel desse canal de comunicação? A cada nova invenção que o homem faz, o processo cultural de uma sociedade se dinamiza. A televisão ampliou a visão que temos da cultura e de seu papel na vida de uma pessoa e de um povo. No Brasil, a televisão provocou, inclusive, uma integração lingüística: passamos a falar a mesma língua, a que a televisão divulga, sem as muitas diferenças que havia antigamente entre uma região do país e outra. "Canais de TV podem ajudar no processo educativo, mas é preciso verba para a campanha de alfabetização. No Brasil temos 20 milhões de analfabetos, isto é, cinco Uruguais." Como crítico literário, qual a sua visão da literatura contemporânea? Tudo o que acontece no mundo entra na literatura de um tempo. Temos hoje uma boa tendência para a experimentação, para buscar na palavra - e até no silêncio entre uma palavra e outra - o segredo de uma comunicação maior. "Tudo avança e melhora, nada derruba o que é bom: Clarice Lispector, Cecília Meirelles e Guimarães Rosa." Por que, segundo uma declaração sua, a respeito de uma pesquisa, as pessoas poderiam viver melhor se conhecessem um maior número de palavras? A realidade é que pensamos com palavras, amamos com palavras, odiamos com palavras, somos felizes ou infelizes com palavras. Quanto maior o alforje de palavras que tenhamos, mais abrangente será a nossa vida e a nossa obra. "Numa pesquisa realizada numa universidade londrina, descobri que entre os jovens o uso básico é de 300 palavras. Shakespeare chegou a 12.000, Machado de Assis, 8.000. Eu estou por volta de 5.000 palavras." Entre os seus projetos na Secretaria de Cultura como está o "Biblioteca na Favela"? Tanto o prefeito César Maia como o Secretário das Culturas, Ricardo Macieira, têm planos para a expansão de nossa rede de bibliotecas, principal-mente nas áreas carentes. Inauguramos bibliotecas em várias favelas: na Rocinha, no Dique, em Divinéia, em Moneró e temos planos para pelo menos dez novas bibliotecas nos próximos meses, elevando o número delas a perto de cinqüenta em todo o município do Rio de Janeiro. "Numa visita a uma favela ouvi uma criança dizendo: 'A melhor coisa que aconteceu nesta favela foi esta biblioteca.' É preciso lembrar: 'nenhum subúrbio do Rio tem livraria.'" Como você situa sua obra poética na 2ª metade do século XX? É muito difícil, a um autor, situar sua própria obra no contexto de uma literatura. Talvez possa dizer que segui um caminho que é normal em todo escritor: o de fazer com que vida e obra entrem num acordo e possam viver bem juntas. "Comecei na poesia em 1949, estive no seminário em Campos, escrevi romances, ensaios, mas sempre volto à poesia quando sinto necessidade de me exprimir. O poema é o espaço onde se pode falar de si mesmo." No seu percurso poético de Presença a Tempo de Verso, o que identifica o seu estilo? Já se disse que o estilo é o homem, mas prefiro dizer que o estilo é o Tempo, com T maiúsculo mesmo. O Tempo entra em nosso corpo, em nossas palavras e determina caminhos e rumos. "O importante é ser o que se é e dominar a palavra. O que não tem nome, não existe." Quais são as paixões segundo Antonio? A paixão maior é a paixão de viver, de estar presente a cada mudança que venhamos a ter e, antes de tudo, de aceitar o novo, o que vem trazer mudanças no caminho que seguimos. "Do alto dos meus oitenta e quatro anos posso dizer que as minhas grandes paixões são a música e a cultura africana. Por exemplo, quando escuto o Concerto Triplo de Beethoven ele me remete à Casa da Água. E na África descobri a cultura negra no Brasil e a presença brasileira na África. Na Bahia, fui escolhido, juntamente com Jorge Amado, para ser ministro de Xangô, no candomblé Afonjá." |
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