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Jornal Poesia Viva - Número 29

Veja aqui Entrevista: Margarida Finkel
Veja aqui Contracapa: Centenário de Pablo Neruda

Editorial: Mudança

No mundo tumultuado, complexo, em mudanças, o que faz um poeta na sua “inocente” ocupação? Ele parece distante, sobrevoando a realidade, ignorando as mazelas. O poeta, verdadeiramente poeta é aquele que sabe usar a Palavra – a arma invisível. O dom, ele tem, a questão é manejá-la. Mais fácil é ser poeta que no seu canto grita a dor, a paixão, o horror, o abandono. Difícil é deslocar-se, ir ao lugar certo. Aí, denunciar as injustiças, anunciar uma vida humana para os deserdados.

Pablo Neruda é este poeta que não viveu somente de versos de amor e desespero. Ele saiu da terra chilena, andou pelos cantos do mundo, soube compartilhar com seus amigos da luta por uma nova sociedade, integrada e participativa. Nossos poetas e Margarida Finkel, poeta lírica, também vivem na batalha da cultura-pão e livro-para todos.

Comissão Editorial

Poesias

A paisagem é um decalque fora
dos meus olhos.
Desfalque no fôlego
fácil do
pássaro.

Depois da prise
o estalo que vara
uma manhã inteira
o vôo todo
sem sílaba tônica
que sorva para mim
a cidade.

Lígia Dabul


Jornal Poesia Viva


TRANSMUTAÇÃO

A poesia espana o meu cotidiano.
A poesia sobe, se esparrama
e brilha à luz do sol.
Tudo me pertence.
Sinto, ouço, vejo, transformo.
Tenho licença.
Falo do objeto:
matizes, serventias,
conteúdo, transcendência.
Falo não só da caneca,
mas do cálice sagrado.
Falo do amor, falo da morte,
de inveja, limite, saudade,
- do que é humano.
Tão simples, tão complicado.
A poesia espanta o meu cotidiano!

Laura Esteves


Jornal Poesia Viva


EXUMAÇÃO

Sempre soubera de perdas
e aprendera cedo
que o medo tinha medo...

Aceitara paciências e olá-como-vais,
dava bom-dias noite adentro
e causava-lhe pânico
a ameaça de um único dia
acabar desculpada....

Experimentara os estupros,
alguns consentidos,
outros sentidos,
alguns indolores “duran”
durariam...

E a vida, assim, morta em vida,
inspirava-lhe casualidades.
Sua aparente mansidão chocava loucos,
inspirava sádicos
ou passeava pela multidão indiferente,
mesmo que insistisse em morrer inerte,
pontual e rapidamente,
aos poucos...

Márcio Paschoal


Jornal Poesia Viva


A SEGUNDA MOLDURA

Ainda guardo o retrato de Ingrid Bergman
como se fosse minha Casablanca.
Na antiga moldura
o passe-partout:
cercadura incipiente,
cartolina azul já desbotada.
A gaveta era a sua segunda moldura
— úmida e voltada para dentro, não se abria.

O passado, às vezes, não diz coisa com coisa,
derrapa, escapa, não conta tintim por tintim.
Deixa um vazio, um aperto, um desassossego,
essa névoa no aeroporto.
Como rascunho,
o passar do tempo-túnel disfarça,
não se quer passado a limpo.

Mas o que foi lembrança é lembrança:
o mesmo filme, as diversas cópias,
os retoques a cada lágrima.
Hoje um alfinete retém a foto na memória,
nada mais.

Augusto Sérgio Bastos


Jornal Poesia Viva


SOL NA RUA DO SOBE-DESCE

à sinistra, o sol – o que assombra.
sobre as árvores, o céu tomba
solidário, à espreita.

à destra, o dia anoitece
entre as frestas da tarde estreita.
no coração, a sombra cresce.

na rua, o sol sobra e desce.

Ronaldo Werneck


Jornal Poesia Viva


As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa —
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)

Paulo Henrique Britto


Jornal Poesia Viva


Não gosto da cor azul
lembra céu diáfano
           abóbada de matriz de subúrbio
           fita de filha de maria
           algo telúrico

lembra olho-oceano-fundo
           mergulho-náufrego

fico enjoada
       fim do mundo
       cheiro de bordo
       mesmo sem viajar

Leda Miranda Hühne


Jornal Poesia Viva


NUA E CRUEL

Não fiquei bonita
nem rica
Não venci batalhas
não morri na guerra

E nem casei com o rei

Luiza Vianna

Jornal Poesia Viva


NUVENS

Passam pássaros longínquos
no alto da órbita azul de Copa.

Desde a areia eu os olho.
                                       Não
haverá mais nada a fazer.

O corpo flutua sobre as águas
claras, que aos poucos
entram pelo nariz, pela boca,
sem que sequer sinta ou se mova.

Nada passado pelas retinas,
ou pelos ouvidos, degustado,
nada escrito,
nenhum sentido
terá de serventia.

Renato Rezende


Jornal Poesia Viva


BILHETE

Meus olhos não expressam teu abismo,
têm um brilho
e não se chama afinidade.

Olho-te como quem
vê um gafanhoto enorme
a se abrigar
no pára-brisa do carro:
um homem elegante e de olhos verdes
com a barba ideal para noites de inverno
nesse frio de cristal
onde o bicho repousa

Inclino-me
e evito acelerar
para que ele não voe
e pouse
suas pernas finas

suas breves mãos
nesse meu corpo

num lugar onde o vento
faça a curva.

Suzana Vargas


Jornal Poesia Viva


CONTO VAGO

de tão lúcido
envolvo-me no tecido feito em fios
de um conto vago
expulso de teus lábios

de tão amargo
(se bem que o gosto sabe a despedida)
aguardo a volta da viagem indefinida
contando todo fim de cada dia

por ser ao mesmo tempo
amargo e lúcido
escrevo solidão dentro de casa
e deixo abertas impenetráveis portas

Carlos de Hollanda


Jornal Poesia Viva


TRAIÇÃO TRÊS

clarisse olhou o barco com dois olhos salgados
esperma ainda quente provocando frio no ventre
foi de encontro à água na areia
arrastou seu corpo pelas pedras
um marisco ainda vivo

penetrou nas suas trevas
e se instalou definitivamente
no lugar mais inseguro do seu porto
para perturbar por toda vida sua fonte de prazer

Artur Gomes



Jornal Poesia Viva


MUTAÇÕES

A morte não contamina,
extravia-se no corpo, inscreve-se
nos interstícios dos passos.
Espinho sob carapaça,
quelóide esquecido
ao vício das entranhas.
Viver — hábito
Que mata!

Estranho à ostra,
o espinho invade, corre,
irrompe extrapola a pérola!
Ao pé do garoto, o anátema.
Inigualável sangra o pontapé
que não se repete
ao vício das entranhas!
Viver—hábito
Que mata!

Quem sabe o tiro rasgue mais a terra
que o espinho a pele inflame!
Esvai-se o plasma, o sangue o útero.
Tomba a árvore e o fruto,
nasce o grito.
E a semente resiste
ao vício das entranhas.
Viver hábito
Que mata!

Léa Madureira


Jornal Poesia Viva


CORRESPONDÊNCIA

Quando digo que dias têm câimbra
digo menos do movimento zero
do tempo preso na fotografia
não digo da ausência de hélices
sequer digo de areias ou deserto
do ar rarefeito ou da vertigem
tampouco me refiro ao dia
que vai a esmo dentro do círculo
e por medo não pára, nem se mira

Quando digo que dias têm caimbra
digo pouco de teias, labirintos
quase nada de muros, finitudes
sequer penso na solidão de ínsulas
nem na morte inútil de seus cardumes
digo apenas que doem os corpos
quando intervalos ou anteprojeto
digo do estar-no-mundo, do divórcio
entre nós e o que somos, tão opostos


Marcus Vinicius


Jornal Poesia Viva


Velhas idéias cospem no meu rosto
a saliva amarga do dia-a-dia,
a homogênea monotonia
da imagem incerta, do plágio tosco.
Eu, a ingênuas mágoas exposto,
face ao metro quadrado que me guia,
sou morro alto, frente à ventania,
da missa, vinho de hediondo gosto.
De todos os revezes, sou, às vezes,
mesmo das vestes do meu corpo,
o alvo e a flecha, o remendo torto.
No cinza dos dias, com o passar dos meses,
vejo-me a gerar, como um aborto,
sempre o mesmo verso morto.

Érico Braga

 

 Jornal  Poesia Viva 29

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Margarida Finkel

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