Homenagem a Mário de Andrade (1893 - 1945)
60 anos de falecimento
Poeta, escritor, crítico, professor, musicista, esteta, arquivista, folclorista...
Eu sou Trezentos, sou Trezentos e Cinqüenta Mário de Andrade Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta, As sensações renascem de si mesmas sem repouso, Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras! Se um deus morrer, irei ao Piauí buscar outro! Abraço no meu leito as melhores palavras, E os suspiros que dou são violinos alheios; Eu piso a terra como quem descobre a furto Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos! Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta, Mas um dia afinal toparei comigo... Tenhamos paciência, andorinhas curtas, Só o esquecimento é que condensa, E então minha alma servirá de abrigo. |

Depoimento: Waly Salomão (1943-2003)
"O povo tem fome de comida e de livros"
O poeta está sendo duplamente homenageado: na Bienal Internacional do Livro, no espaço Jirau de Poesia e no Programa Fome de Livro (VIVA LEITURA) do Ministério da Cultura, por ter sido o grande incentivador do projeto, quando estava à frente da antiga Secretaria Nacional do Livro e da Leitura.
"Não aceito passivamente a situação do poeta no mundo de hoje, confinado no gueto, o poeta que não é lido por ninguém. O poeta guerreiro deve alargar as janelas, mesmo que depois sinta que não foi muito longe. Tem que saber o que dizer na hora. Se não for aos programas, vai ser queimado para sempre, você entra na lista negra da produção. Pense lucidamente, você tem valor, o que fez é defensável. Você tem vergonha ou orgulho daquilo que fez? Você tem que ir e defender, mostrar que acredita no seu taco. O fato de ter esses dois lados, poeta guerreiro e absorto, faz com eles se encontrem, se não seria esquizofrenia total. Tenho sabido fazer conexões entre os dois, até no modo de escrever. Vamos supor que um poema saia num surto. Um lado meu tem que aceitar aquele jorro, mas o outro, o lado crítico, o alter-ego, faz com que eu evite mostrar aquele material que surge na inspiração e que tem que ser necessariamente retrabalhado. Porque a inspiração é onde carreia, igual aluvião, enchente de rio, muita coisa que você pensa que é novo e possivelmente já é um material datado, alheio. A pessoa tem que retrabalhar bastante. Repenso muito, reescrevo, busco a palavra justa daquilo que surge assim, não que eu não goste, em celebre a vinda daquilo. Às vezes fico num poema por supressão cortando coisas que depois vejo que é bobo. Fiquei horas de noite no computador, mas no outro dia muita coisa vai literalmente para lata de lixo. A palavra que veio primeiro não é a mais certa, aí vai vindo outra palavra."
Este depoimento pode ser lido na íntegra
em Poesia Viva em revista (Editora Uapê).

Expediente
Direção: Leda Miranda Hühne
Jornalista Responsável: Glória Barreto (reg. no 13.480, livro 60, fls 21v)
Comissão Editorial: Augusto Sérgio Bastos, Leda Miranda Hühne, Léa Madureira, Luiza Viana e Marcus Vinícius
Ilustrações: Rachel Braga