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Poesia Viva Online

Ano 12 - Número 35


Entrevista: Domício Proença Filho

Domício Proença Filho

Poeta, escritor, acadêmico e autor de Oratório dos Inconfidentes.

 

 

 

Entre tantas faces em que você se manifesta: romancista, ensaísta, crítico literário, antologista, filólogo, pesquisador, conferencista, promotor cultural, professor universitário, por que a poética é a mais escondida?

Talvez porque, lançados, os livros de poemas rapidamente se esgotaram. O Oratório dos Inconfidentes com uma segunda edição. Pode ter havido uma superposição do trabalho do crítico e do professor. É difícil explicar. Sobretudo diante de boa acolhida que os textos mereceram da crítica especializada. Por outro lado, nunca tive a preocupação com privilegiar esta ou aquela atividade.

O que diz o professor de Literatura e de Língua Portuguesa Brasileira sobre a poesia? E o poeta faz outra leitura?

A poesia é o oxigênio do espírito. O poeta lança sobre o mundo, o outro, e sua relação com o outro e com o mundo um olhar especial e traduz, numa linguagem marcada pela polissemia, o resultado de sua visão. Literatura é revelação e linguagem. O texto literário realmente representativo, já disse um crítico, ajuda o comum das gentes a organizar o seu universo cultural. Eu acredito nessas coisas até prova em contrário.

Se o mercado editorial não abre espaço para livros de poesia; se a imprensa não dá vez à divulgação de poemas, que caminhos pode seguir o poeta para ser conhecido e reconhecido? Ou ele escreve para si mesmo?

Penso que o ato de escrever poema ou ficção, envolve, como toda a atividade artística, dois aspectos: todo escritor, em princípio, escreve para si mesmo; atende a um forte imperativo interior, quase a uma compulsão, que o leva a compor seus poemas, como acontece com o que é movido pela arte. Escreve, por outro lado, para o outro, na direção do leitor ou ouvinte. A literatura se efetiva na relação que se estabelece entre autor-texto-leitor. O caminho de acesso ao público consumidor não é fácil, na atualidade. As publicações com o heróico Poesia Viva, os suplementos, as antologias, os livros didáticos e, em especial, a associação do espetáculo às leituras públicas de textos de poesia tem se revelado eficazes na divulgação da arte do verso. Insistir é preciso.

A participação em antologias poéticas, em concursos de poesia, em jornais e revistas de bairro podem ser boas vias de participação e de promoção do trabalho poético?

Sem dúvida. Trata-se de excelentes veículos de divulgação. É um começo. De repente o poeta do bairro torna-se municipal, o que já é um ganho, e, na seqüência, poeta estadual, para culminar, quem sabe, como poeta nacional e ganhar os espaços do mundo. Isso certamente acontecerá se sua poesia ultrapassar os limites de sua biografia e traduzir aquelas características do nosso psiquismo que a ferrugem do Cronos não conseguiu destruir.

Cresce a dimensão oral de poesia através de tantos grupos itinerantes que vão divulgando qualquer tipo de poesia. Isso é um bom sinal?

É. A prática retoma a antiga tradição que vem desde a Idade Média, quando os jograis, segréis e trovadores divulgavam suas composições nos palácios e castelos, nas praças e nas feiras. Lembram também os recitais domésticos de poesia, os saraus, e até, guardadas as devidas proporções, as sessões de academias e sociedades literárias do século XVIII. Quanto à distinção entre o joio e o trigo, o público fará, sem dúvida. Escrever é sempre um risco.

Os livros Oratório dos Inconfidentes e Dionísio Esfacelado (cancioneiro do Quilombo dos Palmares) revelam um escritor envolvido com as nossas raízes. Você despertou para esses temas através de livros ou da observação e pesquisa da realidade brasileira?

O livro Dionísio Esfacelado nasceu de uma sugestão de meu filho Flavinho, depois de ler o meu primeiro livro de poemas, O cerco agreste, centrado em perspectivas existenciais. Ele achou aquela poesia muito autocentrada. E propôs que eu enfrentasse minha ancestralidade, escrevendo a saga dos Palmares. A idéia me mobilizou imediatamente. E levou à pesquisa extremamente reveladora. E os poemas foram nascendo. O Oratório emergiu, na seqüência, motivado, inicialmente, pelo impacto provocado pelo painel de Portinari sobre o tema. Os versos independeram da pesquisa. Esta veio depois da leitura dos originais com que me gratificou mestre Rubem Fonseca.
Foi ele que sugeriu a explicitação, “ à maneira de Pound”, de certas passagens dos poemas. Aceitei entusiasmado a sugestão e vieram as “ estações do discurso”. Depois entendi que seria interessante acrescentar, em prosa poética, o relato da história da conjuração mineira, o que foi feito. Por último, juntei excertos dos Autos da Devassa. Ao fundo, a força da palavra.
O subtítulo do livro é a propósito, esclarecedor: Faces do verbo. Em síntese: a tônica dos meus livros na área é a obsessão da Liberdade.

Que critérios, como crítico literário, você usa para avaliar um livro de poesia?

Entendo que a literatura é obra de arte da linguagem. Por força desse entendimento, examino como o poema concretiza e o que nele se diz no uso especial da língua em que se funda. Nesse dizer, sobretudo no que se esconde no silêncio do texto, centralizo a atenção nas duas características que ainda considero marcas relevantes do texto literário: universalidade e multissignificação. Até o momento em que respondo ao Poesia Viva. A dinâmica que preside o processo literário e a Cultura em que se insere poderá conduzir a reformulações e a adequações. A literatura é tão viva quanto a língua, seu ponto de partida.

Pela participação atual em grandes eventos, a sua vida pode parecer dividida: antes e depois da Academia Brasileira de Letras. Mas o seu currículo mostra que o promotor cultural sempre esteve presente na sua trajetória. O que lhe mobiliza no campo da cultura?

O ingresso na Casa de Machado de Assis, por incrível que pareça, não dividiu: ampliou. A Academia vai muito além dos prazerosos chás das quintas feiras. Promove ciclos de conferências semanais, seminários mensais sobre questões da cultura brasileira, mesas redondas sobre autores e temas relevantes; concertos de música, exibe peças de teatro; constitui uma editora de médio porte; mantém, com regularidade, a publicação da Revista Brasileira; possui um Centro de Memória, duas bibliotecas, a Biblioteca Lúcio de Mendonça, dedicada aos acadêmicos, e a moderníssima Biblioteca Rodolfo Garcia, ambas à disposição do público, para pesquisas e leitura. Possui ainda uma moderna sala de videoconferências, além de estar presente na Internet. Tudo isso está associado à atuação dos seus integrantes. E para quem sempre se interessou pela causa da literatura, da língua portuguesa e da cultura brasileira possibilita um notável espaço de atuação e de troca de experiências. Vale o trabalho, extremamente gratificante.

E o educador tem algum projeto envolvendo educação e poesia?

Para o futuro. No momento, estou terminando os originais de um livro sobre a história da língua portuguesa, para a Editora José Olympio, preparo um roteiro de filme sobre o português brasileiro e revejo dois livros de poemas: O risco do jogo e Cantar d’amor d’amigo. Nos intervalos, passo pente fino no texto de um estudo crítico sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, e preparo a 3ª edição revista e ampliada de Por dentro das palavras da nossa língua portuguesa.


 



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