Entrevista: Domício
Proença Filho

Domício Proença Filho
Poeta, escritor, acadêmico e autor de Oratório dos
Inconfidentes.
Entre tantas faces em que você se manifesta: romancista,
ensaísta, crítico literário, antologista,
filólogo, pesquisador, conferencista, promotor cultural,
professor universitário, por que a poética é
a mais escondida?
Talvez porque, lançados, os livros de poemas rapidamente
se esgotaram. O Oratório dos Inconfidentes com uma segunda
edição. Pode ter havido uma superposição
do trabalho do crítico e do professor. É difícil
explicar. Sobretudo diante de boa acolhida que os textos mereceram
da crítica especializada. Por outro lado, nunca tive a
preocupação com privilegiar esta ou aquela atividade.
O que diz o professor de Literatura e de Língua
Portuguesa Brasileira sobre a poesia? E o poeta faz outra leitura?
A poesia é o oxigênio do espírito. O poeta
lança sobre o mundo, o outro, e sua relação
com o outro e com o mundo um olhar especial e traduz, numa linguagem
marcada pela polissemia, o resultado de sua visão. Literatura
é revelação e linguagem. O texto literário
realmente representativo, já disse um crítico, ajuda
o comum das gentes a organizar o seu universo cultural. Eu acredito
nessas coisas até prova em contrário.
Se o mercado editorial não abre espaço
para livros de poesia; se a imprensa não dá vez
à divulgação de poemas, que caminhos pode
seguir o poeta para ser conhecido e reconhecido? Ou ele escreve
para si mesmo?
Penso que o ato de escrever poema ou ficção, envolve,
como toda a atividade artística, dois aspectos: todo escritor,
em princípio, escreve para si mesmo; atende a um forte
imperativo interior, quase a uma compulsão, que o leva
a compor seus poemas, como acontece com o que é movido
pela arte. Escreve, por outro lado, para o outro, na direção
do leitor ou ouvinte. A literatura se efetiva na relação
que se estabelece entre autor-texto-leitor. O caminho de acesso
ao público consumidor não é fácil,
na atualidade. As publicações com o heróico
Poesia Viva, os suplementos, as antologias, os livros didáticos
e, em especial, a associação do espetáculo
às leituras públicas de textos de poesia tem se
revelado eficazes na divulgação da arte do verso.
Insistir é preciso.
A participação em antologias poéticas,
em concursos de poesia, em jornais e revistas de bairro podem
ser boas vias de participação e de promoção
do trabalho poético?
Sem dúvida. Trata-se de excelentes veículos de
divulgação. É um começo. De repente
o poeta do bairro torna-se municipal, o que já é
um ganho, e, na seqüência, poeta estadual, para culminar,
quem sabe, como poeta nacional e ganhar os espaços do mundo.
Isso certamente acontecerá se sua poesia ultrapassar os
limites de sua biografia e traduzir aquelas características
do nosso psiquismo que a ferrugem do Cronos não conseguiu
destruir.
Cresce a dimensão oral de poesia através
de tantos grupos itinerantes que vão divulgando qualquer
tipo de poesia. Isso é um bom sinal?
É. A prática retoma a antiga tradição
que vem desde a Idade Média, quando os jograis, segréis
e trovadores divulgavam suas composições nos palácios
e castelos, nas praças e nas feiras. Lembram também
os recitais domésticos de poesia, os saraus, e até,
guardadas as devidas proporções, as sessões
de academias e sociedades literárias do século XVIII.
Quanto à distinção entre o joio e o trigo,
o público fará, sem dúvida. Escrever é
sempre um risco.
Os livros Oratório dos Inconfidentes e Dionísio
Esfacelado (cancioneiro do Quilombo dos Palmares) revelam um escritor
envolvido com as nossas raízes. Você despertou para
esses temas através de livros ou da observação
e pesquisa da realidade brasileira?
O livro Dionísio Esfacelado nasceu de uma sugestão
de meu filho Flavinho, depois de ler o meu primeiro livro de poemas,
O cerco agreste, centrado em perspectivas existenciais. Ele achou
aquela poesia muito autocentrada. E propôs que eu enfrentasse
minha ancestralidade, escrevendo a saga dos Palmares. A idéia
me mobilizou imediatamente. E levou à pesquisa extremamente
reveladora. E os poemas foram nascendo. O Oratório emergiu,
na seqüência, motivado, inicialmente, pelo impacto
provocado pelo painel de Portinari sobre o tema. Os versos independeram
da pesquisa. Esta veio depois da leitura dos originais com que
me gratificou mestre Rubem Fonseca.
Foi ele que sugeriu a explicitação, “ à
maneira de Pound”, de certas passagens dos poemas. Aceitei
entusiasmado a sugestão e vieram as “ estações
do discurso”. Depois entendi que seria interessante acrescentar,
em prosa poética, o relato da história da conjuração
mineira, o que foi feito. Por último, juntei excertos dos
Autos da Devassa. Ao fundo, a força da palavra.
O subtítulo do livro é a propósito, esclarecedor:
Faces do verbo. Em síntese: a tônica dos meus livros
na área é a obsessão da Liberdade.
Que critérios, como crítico literário,
você usa para avaliar um livro de poesia?
Entendo que a literatura é obra de arte da linguagem.
Por força desse entendimento, examino como o poema concretiza
e o que nele se diz no uso especial da língua em que se
funda. Nesse dizer, sobretudo no que se esconde no silêncio
do texto, centralizo a atenção nas duas características
que ainda considero marcas relevantes do texto literário:
universalidade e multissignificação. Até
o momento em que respondo ao Poesia Viva. A dinâmica que
preside o processo literário e a Cultura em que se insere
poderá conduzir a reformulações e a adequações.
A literatura é tão viva quanto a língua,
seu ponto de partida.
Pela participação atual em grandes eventos,
a sua vida pode parecer dividida: antes e depois da Academia Brasileira
de Letras. Mas o seu currículo mostra que o promotor cultural
sempre esteve presente na sua trajetória. O que lhe mobiliza
no campo da cultura?
O ingresso na Casa de Machado de Assis, por incrível que
pareça, não dividiu: ampliou. A Academia vai muito
além dos prazerosos chás das quintas feiras. Promove
ciclos de conferências semanais, seminários mensais
sobre questões da cultura brasileira, mesas redondas sobre
autores e temas relevantes; concertos de música, exibe
peças de teatro; constitui uma editora de médio
porte; mantém, com regularidade, a publicação
da Revista Brasileira; possui um Centro de Memória, duas
bibliotecas, a Biblioteca Lúcio de Mendonça, dedicada
aos acadêmicos, e a moderníssima Biblioteca Rodolfo
Garcia, ambas à disposição do público,
para pesquisas e leitura. Possui ainda uma moderna sala de videoconferências,
além de estar presente na Internet. Tudo isso está
associado à atuação dos seus integrantes.
E para quem sempre se interessou pela causa da literatura, da
língua portuguesa e da cultura brasileira possibilita um
notável espaço de atuação e de troca
de experiências. Vale o trabalho, extremamente gratificante.
E o educador tem algum projeto envolvendo educação
e poesia?
Para o futuro. No momento, estou terminando os originais de um
livro sobre a história da língua portuguesa, para
a Editora José Olympio, preparo um roteiro de filme sobre
o português brasileiro e revejo dois livros de poemas: O
risco do jogo e Cantar d’amor d’amigo. Nos intervalos,
passo pente fino no texto de um estudo crítico sobre Dom
Casmurro, de Machado de Assis, e preparo a 3ª edição
revista e ampliada de Por dentro das palavras da nossa língua
portuguesa.