Residindo em países de culturas tão diferentes, qual a sua percepção da presença e repercussão da poesia?
A poesia é uma expressão estética universal. Todos os povos a utilizam, à maneira de cada um, desde a origem da humanidade. Ela é uma necessidade espiritual dos seres humanos. É também um índice do nível de desenvolvimento humano, intelectual e mental das sociedades. Quanto mais organizada, pacífica e psiquicamente saudável, mais poesia produzirá determinada sociedade. Dentre lugares onde morei e trabalhei, os que me proporcionaram melhor ambiente para adaptação foram aqueles em que os poetas eram mais acessíveis e mais produtivos. Por exemplo, no meu primeiro Posto diplomático, que foi Lima (de 1991 a 1994) conheci muitos poetas e escritores e percebi que ali, apesar dos problemas sociais e políticos do país, havia uma força humana regenerativa, uma vontade de paz e fraternidade que, de algum modo, anulavam os efeitos negativos causados pelos conflitos sociais. Nesse caso, a poesia era fator de integração, porque os poetas se manifestavam em praça pública pela paz, contra o terrorismo e realizavam recitais, conferências etc. Essa mesma sensação tenho tido no Rio de Janeiro, onde, apesar de tantos problemas, a atividade poética está em plena efervescência, com recitais, lançamentos de livros e palestras, entre outras promoções culturais.
Publicar poesia em outra língua como você tem feito, causa estranhamento?
Causa estranhamento para o próprio autor, enquanto ele ainda não conhece profundamente o idioma no qual escreve. Mas entendo que poesia é experiência e liberdade. Nesse sentido, cheguei a publicar poemas em francês, inglês e espanhol, línguas que estudei em minha formação profissional. Afinal, vi que precisava escolher uma das três, sob pena de não fazer nada interessante em nenhuma delas. Especializei-me em espanhol e hoje já não sinto estranhamento ao escrever nessa língua. Mas tive que passar mais de dez anos lendo e escrevendo todos os dias (em) nesse idioma, até conseguir um bom nível de expressão. Vejo que o conhecimento de línguas estrangeiras contribui para o melhor domínio da língua materna. Sobretudo o castelhano, que é muito parecido com o português e possibilita leitura de admirável literatura.
Foi saudade do Rio que mobilizou a criação do seu livro Emoção Atlântica?
Foi saudade e encantamento. Saudade, nos períodos de ausência. Encantamento, nas ocasiões em que vivenciei as experiências e contemplações transmitidas nos poemas. Vivi no Rio cerca de um ano, dos dois aos três anos de idade. Depois, a partir dos 15, passei a visitar a cidade uma vez por ano, permanecendo cerca de 15 dias a um mês, de cada vez. Sempre senti uma espécie de alumbramento (como diria Manuel Bandeira), diante da paisagem do Rio. Também um chamamento místico que sempre me atraiu, por causa da tradição artística e literária da cidade. Grandes escritores, não só cariocas, mas de todo o Brasil, deixaram as marcas indeléveis de suas obras artísticas, algumas das quais louvando a beleza dos recantos do Rio de Janeiro. Com tantos motivos, não havia de faltar inspiração. Considero o meu livro Emoção Atlântica um hino de amor à natureza e aos poetas que vivem ou viveram nesse espaço urbano tão singular.
Você aproxima poesia e música como forma de entretenimento ou elas exercem outros papéis?
A poesia e a música nasceram juntas em épocas remotas. Penso que elas coexistirão inseparavelmente, enquanto houver no mundo algum resquício de sensibilidade. Todo verso tem a sua musicalidade intrínseca. Toda melodia é compatível com a palavra ritmada. A poesia não esgota suas possibilidades de comunicação na forma escrita, mas em duas outras dimensões complementares - a palavra recitada e a palavra cantada. Claro que há certa tendência a decair o nível do poema, quando ele é escrito especificamente pra caber na linha melódica de uma canção. É preciso que o letrista tenha o cuidado de não banalizar o texto. Mas, com certeza, é possível fazer autêntica poesia adaptável à música. Só depende da destreza do poeta. Ele terá que escrever a letra com qualidade literária para se sustentar na página do livro, como verdadeira poesia. Parece que poucos compositores têm conseguido tal êxito, mas alguns foram capazes. Assim como a letra atribui sentido e beleza à melodia, também a música realça o sentido e o prazer estético do poema previamente escrito. Portanto, desfrutar da poesia musicada é mais do que entretenimento. É, na minha sensibilidade, o próprio êxtase, a pura estesia.
Como foi a experiência de publicar poemas musicados em CD?
Produzi nove discos de poemas musicados e dois de recitados. Embora seja mais caro do que publicar livro, o resultado, em termos de repercussão, compensa os gastos. Vale a pena interagir com os dois tipos de público, o que prefere desfrutar da poesia por meio da palavra cantada e o que gosta mais de ler livros. Além disso, é gratificante a convivência com os músicos (intérpretes e compositores) e a experiência de ver as gravações no estúdio também é das mais agradáveis.

NOTURNO DO RIO DE JANEIRO
Atravesso os túneis e o tumulto fervilhante.
Observo as velozes máquinas,
deslizando sobre o plano escuro do asfalto.
Vislumbro a orla marítima pontilhada de luzes,
fluxo palpitante de vida, cintilando rotativos faróis.
Água a renovar de brisa o perímetro das artérias.
Da janela do ônibus, revejo o cenário comovente:
a transfiguração da paisagem.
Rio de Janeiro, atendo ao chamado do teu ritmo:
percurso voraz da sensação,
tráfego turbulento.
Satisfaço-me, contemplando a volante fruição.
A nave dos idílios, na Gávea dos teus respiradouros.
Vejo a linha costeira de lustres e cristais.
A ponte é um rosário incrustado de rubis,
um carrossel faiscante.
As colinas, nubladas de cerração.
Névoa do anoitecer, lavando minhas pálpebras.
Consterna-me afastar o olhar
do teu relevo enternecedor.
Um poeta é um demiurgo? É um boêmio? O que é um poeta?
Acredito que o poeta tem essas duas tendências. É demiurgo porque precisa trabalhar muito. Ler muito pra desenvolver o máximo de habilidade expressiva. É boêmio porque o seu compromisso é com a liberdade. Entendo a palavra boemia como uma manifestação de liberdade, na medida em que a própria vida exige um momento de descontração, de expansão, de deleite dionisíaco. Não convém impor limites à criatividade, salvo aqueles prescritos pela própria consciência do autor. Talvez essa dualidade seja uma das causas de os poetas, quase sempre, sofrerem mais que os não-poetas. Quanto esforço de concentração, quanto exercício de memória e imaginação a arte exige do artista! Nesse sentido, prevalece a condição do demiurgo. O visionário do invisível precisa ver mais que toda a gente, porque não se lhe isentam os deveres e obrigações sociais. Muitas vezes ele tem que trabalhar dobrado, numa profissão que lhe dê o sustento material e, em horas residuais, na literatura, que lhe proporciona o alimento espiritual. Custa muito viver com os pés na terra e o cérebro nas constelações.
Vejo que, nessa luta, a um só tempo, pela sobrevivência e pelo ideal, o poeta se configura como o herói que, sob a pressão de tantos desafios, contribui, com o seu aporte de beleza e verdade, para o bem-comum e o progresso da civilização. Às vezes o poeta parece um mártir, quando ele se sacrifica por um ideal superior, numa ascese, na consagração espiritual em que ele ascende da inglória condição de marginal à luminosa função de ídolo.
Como surgiu e foi se desdobrando a poesia em sua vida?
Parece que a gente nasce predestinado. Eu teria 4 ou 5 anos, quando fiquei olhando a lua, longamente... Gostava, desde menino, de música de rádio e ouvia, com encanto, os repentistas nordestinos, numa emissora cearense. Aos 15 anos comecei a ler os poetas românticos. Aos 16, tive uma crise existencial, no momento em que lia e relia o poema "Lâmpada Marinha", de Jorge de Lima.
Até hoje não sei bem se me curei da crise, mas sei que nunca mais deixei de sonhar. Continuei comprando livros, lendo-os e admirando os poetas consagrados como ídolos e mestres, e os colegas de geração como meus irmãos. E entendi que o conhecimento da poesia desenvolve-se em sucessão discipular. Aprendi com os mais velhos, aos quais sempre prestei reverências, como se deve reverenciar os ancestrais, dos quais recebemos a carga genética do que somos. Cada livro publicado tem sido motivo de emoção indizível. A arte da palavra representa a coisa mais importante da minha vida, ao lado dos valores que mais prezo, minha família, a fé no Ser Superior e a certeza da necessidade de uma conduta ética. Noto que, no começo, quando era mais jovem, eu era mais inspirado do que hoje em dia, mas não sabia dizer as coisas como hoje. Meu empenho consiste em tentar não perder de todo aquela emoção antiga, aquela espontaneidade e, ao mesmo tempo, aprimorar cada vez mais a técnica.
É necessário aprendizagem para se chegar a ser poeta?
Na visão que tenho, a aprendizagem do poeta coincide com o que denomino evolução espiritual. A proporção que depuramos a forma de expressão, desenvolvemos mais sensibilidade e mais claridade na consciência. Vejo a poesia como um caminho iniciático de aperfeiçoamento do ser humano. Quanto mais sensível, humano e primoroso, mais o poeta se aproxima do arquétipo de perfeição que a natureza estabelece. Trata-se de um lugar a ser conquistado pelo mérito, isto é, pela disciplina e pela dedicação à arte de escrever e à própria compreensão da vida. O poeta recebe a dádiva de ser uma fonte, mas precisa cultivar o talento pra que essa fonte se transforme num manancial em que grandes contingentes possam saciar a sede de luz.
O que faz com que a poesia não seja prosa?
A poesia é sintética. A prosa é analítica. Num verso cabem inúmeras páginas de prosa. E, em decorrência da síntese, o ritmo da poesia é mais veloz que o da prosa. A sequência, o encadeamento das frases acontece de forma mais objetiva e imediata, porque o discurso tem menos adornos ou adereços. Nesse máximo de conteúdo, configurado no menor recipiente léxico, a leitura flui instantaneamente. Outro elemento fundamental é a diversidade lúdica e imagética. É a utilização da riqueza polissêmica dos vocábulos, em que a metafora aparece como a rainha das figuras de linguagem.
Você acredita que a poesia denunciadora de tantas mazelas possa ter força política da transformação social?
Alguns poetas, quando adquirem grande notoriedade, podem contribuir para gerar mudanças sociais. De forma indireta. Como, por exemplo, quando uma nação tem estadistas esclarecido ou uma elite culta. Nesses casos, a poesia já é fator de transformação, já que os governantes serão humanistas que conhecem as regras de civismo e governam honestamente. Porque eles aprenderam com o conhecimento das ciências humanas e das artes, dentre as quais a imprescindível arte da palavra. De resto, a poesia tem muito a ensinar.
RIO DE JANEIRO
Quando Jean-Paul Sarte passou pelo Rio de Janeiro, na década de 60, profeticamente falou: "a verdade do Rio está nas favelas". Mas a maioria dos artistas tem feito um recorte das belezas do Rio como se fosse um cartão postal. Exaltam as esplêndidas paisagens naturais, a magia do litoral entravado em sinuosas montanhas e verdes da Mata Atlântica. Pinçam um mundo de cenas idílicas, praias com lindas mulheres, praças e esculturas, lagos e barcos e tantos pontos turísticos. Na verdade convive-se com as antíteses sociais sem perceber o choque com o submundo nos morros. Choque provocado por inconsciência política da desigualdade social, arraigada no processo da nossa história. Muitos poetas, timidamente, denunciam essa situação, mas sabem que são regidos por uma máquina poderosa. E suas vozes, muitas vezes, perdem-se no alarido da engrenagem.Rio by night
II
Noite acesa
no estádio.
A olho nu
o ludopédio complicado
o goleiro
de bigode.
III
Se há lua há além da lua
a tela do drive-in
imensa.
Se há lua há além da lua
tontas outras
sobre o Rio.
No Jockey clarim de holofote
neon grama no Maracanã.
Se há lua a lua
não sabe
qual luz é sua.
Angela Melim
Gaúcha, poeta, autora Das tripas coração.
Hans Hühne
Drummond é Deus. Pai inalcançável.
Armando Freitas Filho
(in CDA no coração)
Eu não pensei em falar de Drummond.
Pelo menos neste poema, não quero.
Mas como evitá-lo? Como esquecê-lo
se sua imagem é onipresente?
Lá está, sentado, de pernas cruzadas,
as costas pro mar de Copacabana.
O hábito de sofrer que o divertia,
era doce lembrança itabirana.
Já não sofre nem se diverte mais.
Agora estátua, apenas bronze frio,
o banco de pedra é quase um altar.
As crianças o tratam como santo.
Indecisos, adultos se dividem:
alguns adoram, vândalos aviltam.
No poema de Armando, Drummond é Deus.
Eu acredito. É Deus, está escrito.
Augusto Sérgio Bastos
Carioca, poeta, autor de À luz da estante.
Teócrito Abritta
FREI LEANDRO E SEU JARDIM
Meu velho Jardim Botânico
abre sementes aos séculos
das aldeias d'além Tejo
rasgando o assoalho da terra!
Incontentáveis cipós
sobem aos troncos guardiães
de lendas mitos histórias
Desejo a volver manhãs
címbalos santos, balbúrdia
sanhaços pardais tucanos
cambaxirras, maritacas
bem-te-vis e tico-ticos
de oiti, mangueira, aos adornos
dos abricós de macaco
Da jaqueira, Frei Leandro
ao caramanchão espreita
junto ao relógio de sol
os olhos da deusa Tétis
que enfeitiçava os cipós
repreendendo os parasitas
e o desatino das pragas
Léa Madureira Lima
Carioca, professora, autora de As cercanias do outono.
AQUELA PERDIDA LUA DE COPACABANA
Amores não correspondidos são balas perdidas
em plena Avenida nossa senhora de Copacabana.
Não ouvem a musicalidade lógica das ondas
para calar o bêbado soluço,
a sina de carregar o corpo deserto.
Tudo é avesso, naufrágio, solidão velha
neste calçadão bordado de prostitutas, pivetes.
Amores não correspondidos nunca se apossam
das tardes lentas no Caminho do Pescador.
A rede que devia partilhar a carne,
recolhe homens, mulheres que têm no peito
não um rio amparado por estrelas,
mas uma Bagdá de abandonos.
Lila Maia
Maranhense, pedagoga, autora de Céu despido.
ARCOS DA LAPA
Madame Satã não circula mais
com aquela lucidez infernal
pelos botequins do Rio de Janeiro
guardou a navalha ferina
no bolso espumante do tempo
e o galego vende chope indiscreto
na Velha Lapa embriagada
cearenses inauguram negócios
esquecidos do malandro inovador
senhor dos becos sombrios
e chapoletadas escondidas na mão esquerda
e o galego vende chope cambaleante
com embatatados bolinhos de bacalhau
as borboletas da noite
negociam sexo ilusionista
cintilam seios transformistas
para zorros executivos
nas fluorescentes ruas dissimuladas
e o galego vende chope calmante
para serenar conflitos aflitos
o talento do satânico radar humano
desse capoeirista travesti sambista
não dança mais a endiabrada criatividade
nos cabarés despejados sem saudosismos
e o galego vende chope chapado
para o rosto barril consumindo
olhos de ressacas
Domingo Gonzáles Cruz
Espanhol, poeta, autor de In Andanças do amanhecer
Teócrito Abritta
MANGUE
(poema in Libertinagem)
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de
[ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de
[coque
Há macu mbas no piche
Eh cagira mia pai
Eh cagira
E o luar é uma coisa só
Houve tempo em que a Cidade Nova era mais [subúrbio do que todas as Meritis da Baixada Pátria amada idolatrada de empregadinhos de
[repartições públicas
Gente que vive porque é teimosa
Cartomantes da Rua Carmo Neto
Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas
[tabuletas avulsivas
O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se
[olhavam com rancor (...)
Manuel Bandeira
Teócrito Abritta
CARNAVAL CARIOCA
(poema in Clã do Jabuti)
A fornalha estrala em mascarados cheiros silvos
Bulhas de cor bruta aos trambolhões,
Cetins sedas cassas fundidas no riso febril...
Brasil!
Rio de Janeiro!
Queimadas de verão!
E ao longe, do tição do Corcovado a fumaça das
[nuvens pelo céu.
Carnaval...
Minha frieza de paulista,
Policiamentos interiores,
Temores da exceção...
E o excesso goitacá pardo selvagem!
Cafrarias desabaladas
Ruínas de linhas puras
Um negro dois brancos três mulatos, despudores...
(...)
Ante o sangue ardendo povo chiba frêmito e
[clangor.
Risadas e danças
Batuques maxixes
Jeitos de micos piricicas
Ditos pesados, graça popular...
Ris? Todos riem...
(...)
Carnaval...
A baiana se foi na religião de Carnaval
Como quem cumpre uma promessa.
Todos cumprem suas promessas de gozar.
(...)
Mário de Andrade
TARDE NO MORRO
Desfaz-se a tarde na cidade
esmaecendo em tons,
de enganos tolos
desabrochante e cálida,
estonteante e pálida,
em incontidos gritos
– de assombro.
Tocaias e tiros perfuram casas
e berços,
beatas rezam seus terços
na igreja caiada,
abandonada à sorte
de prantear a vida e embalar a morte.
Da escola ecoam
latas e vozes. Que protestam
– em coro.
Acima e ao alto,
e a tudo alheio,
alvo varal direciona o vento
– de chuva.
Uivando o cão lambe sua dona morta
no velho barraco onde batia a porta.
Isabel Corsetti
Gaúcha, arquiteta, autora de Plano de fundo.
RUBRO-NEGRO
Uma FLAma me inFLAma e sou FLAmengo
sopro de brisa
tempestade
FLAmen
go de gozo e gogó — o go do jogo
o go do gol — o go do gole o GO
de Goiás e do gorro do Saci.
Gosto de ser FLAmengo como gosto
do FLAgrante das FLÂmulas do grito
de vitória nas tardes FLAmejantes
de doMengo
Mas uma vez FLAmengo, sou FLAbelo,
sou desejo FLAmívono nas vozes
arqui torcidas nas arquibancadas.
De rubro e negro e de cachimbo e fumo
visto meu som de FLAuta e FLAjolé
olé! minha cabeça na disputa
olé! a minha perna dribla e chuta
olé! a bola gira no meu pé!
Um Saci que se inFLAma deita e rola
que põe mandinga na palavra bola
quando vê o FLAmengo dar olé!
Gilberto Mendonça Teles
Goiano, poeta, autor de Hora aberta
(Poemas Reunidos).
Teócrito Abritta
ROCINHA
OLHOS NAS JANELAS
OLHOS ASSUSTADOS
GENTE CORRENDO
GENTE GRITANDO
CORPOS NAS VIELAS
CORPOS NAS RUELAS
CRIANÇAS NOS BERÇOS
CRIANÇAS NOS BECOS
UMA METRALHADORA
NA QUINA DA ESQUINA
APONTA A ESMO
FUZIL CORRESPONDE
CAI TRAFICANTE
CAI INDEFESO ROLA DROGAS
ROLA TIROS
ROLA O VERDE
CENA SE REPETE
DIA SIM DIA NÃO
SE REPETE NA ROCINHA
É GUERRA É GUERRILHA
Leda Miranda Hühne
Natalense, poeta, professora, autora de Maria e as outras.
Teócrito Abritta
Inocentes Do Leblon
(Poema in Sentimento do mundo)
Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe emigrantes?
Trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes,
[tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
Carlos Drummond de Andrade
SANTA TERESA
Subo os mirantes:
mar envolto em névoa,
ilhas veladas na distância.
Passa um cortejo armado;
o crepúsculo me devolve a beleza.
As primeiras luzes brilham na costeira.
Faroletes vacilam nos tetos das favelas.
Além, o próprio mar desaparece noutro mar,
na profusão abstrata.
Lá vem o bondinho!
Salto para dentro da engrenagem.
Formidável trepidação!
Sinuosidades do movimento declinante.
Serpenteia o artefato, na iminência de se
despedaçar.
Percorro dois séculos em minutos.
Na emoção de cruzar os estreitos arcos,
a altura é a do espírito,
arqueologia do sentimento.
A IGREJA DA PENHA
Entre favelas em que se acendem casas
[amontoadas,
a Igreja é um altar acoplado à pedra,
um farol sobre a várzea colorida.
A insígnia da Ponte coroa a perspectiva.
Policromáticas edifi cações:
o povoamento gradativo agarrado à encosta.
Alarido de cães, gritos de crianças,
batucadas, fogos de artifícios...
Montanha cravejada de casebres,
a favela é um vulcão de expectativa.
Relíquia sobre a erupção,
a Igreja repousa em meio ao paradoxo.
PAISAGEM VISTA DA BARCA RIO-NITERÓI
Um cenário enternecedor se descortina:
a Ilha Fiscal com seu castelinho verde,
famoso pelo último baile do Império.
No aeroporto, um anfíbio de metal sobe
perpendicular ao Pão de Açúcar,
até sumir na imensidade.
Sobre as águas magnéticas voa rasante uma
[gaivota.
De um lado, Niterói, com quadriláteros imóveis.
Do outro, o Rio, com as fachadas de vidraça e
os pórticos da Candelária,
cúpula emoldurada entre os edifícios e a
[Serra do Mar.
Os barcos deixam rastros de espuma.
O arcabouço da ponte, cingindo de bruma,
portal das ilhas, convida ao devaneio.
A harmonia das velas, em arranjo místico,
fl utua no jardim azul.
Venturosa travessia nas carícias do vento.
Na chegada a Niterói,
uma garça encantada ergue o pescoço,
feito um elfo branco.
Signo de bom augúrio, nos aromas da tarde.
DE LARANJEIRAS AO LARGO DO MACHADO
Os bairros têm a sua aura.
Vejo Laranjeiras senhorial,
nos terraços incrustados de eras.
Desço a ladeira, em meio a lufadas
de monóxido de carbono.
O Rio se torna todos os Brasis.
A tarde foge feito ave de arribação.
Tarde de estertores ambulantes.
Gente que pulula em marcha e contramarcha.
Por fi m, aparece a igreja,
com as colunas imponentes.
Mas o meu oratório fi ca entre as árvores,
perto do chafariz,
junto à estátua de Lorenzo Fernández,
que os pombos atrevidos maculam.
Meus ícones são as palmeiras,
os ônibus em movimento
e os automóveis sob a folhagem.