Foto de Cláudio Damatta
Você vê, nos dias de hoje, a poesia digital concorrer com a poesia oral e escrita?
Vejo, nos dias de hoje e ontem, o ímpeto viciado da classificação a concorrer com a poesia, como se bastasse uma adjetivação, um atributo, para dar conta do que, substantivamente, segue na maioria das vezes impensado ou escamoteado por algum discurso retórico. Não basta falarmos em poesia digital, poesia oral, poesia escrita, se não houver, sempre e primeiramente, poesia. As classificações até podem importar sociológica e/ou antropologicamente; podem até conspirar em favor de alguma historiografia estética ou estilística, mas o pensamento substantivo, o pensamento do próprio da poesia, é sempre mais radical. A questão não me parece ter que seguir as modas e os modos tecnocráticos de produção poética, de tal maneira que pareça anacrônico o poeta que, no século XXI, ainda insista no poema, ignorando os bytes e pixels dos recursos atuais. O poeta não é obrigado a nada, a não ser a fazer poesia (ou, antes, ser feito por ela) Se, outrora, a forma fixa foi considerada ultrapassada pelo verso livre, em muitas discussões da moda parece pouco pop celebrar o verso: não só porque os hibridismos de toda espécie urgem atraentes (nas variações da prosa poética e do poema em prosa – novidade nenhuma na História, porque desde sempre existentes, embora sem a nomenclatura epistemológica). Difunde-se, muitas vezes, uma tendência à poesia performática, ao vídeo-poesia, ao poema-dança etc., como se alternativa e diversidade de produção significassem uma possível superação da poesia de papel e, principalmente, do livro impresso. Eu sei que, em tese, os palpiteiros alegam a não-superação e a importância da pluralidade, porque a praxe é, afinal, apelar para o discurso da democracia, da convivência harmoniosa. Mas isso me lembra o mito da cordialidade entre negros e brancos, no qual todo conflito e desequilíbrio se ocultariam na fala festiva da miscigenação.
O que significa a poesia em sua vida?
Para responder, eu precisaria saber o que vida significa. Como não sei, escrevo. E descubro, de repente, que vida faz sentido.
A experiência de publicar poesia é prazerosa?
Se eu disser que não é, mentirei, porque fomos e somos educados a valorizar o ego e este, se não quiser o rótulo do sado-masoquismo, terá de esforçar-se para ser feliz. No entanto, felicidade não é prazer: o hedonismo me parece um tanto circunstancial, parcial, frívolo e, uma vez mais, egoico. É pouco para justificar a publicação (mas, como nos agrada lançar mão do pouco, vale como justificativa, mesmo que seja uma justificativa vagabunda, e mesmo que sejamos nós os vagabundos sem vergonha de publicar qualquer vagabundagem). A felicidade é mais radical: perfaz-se no pleno, na completude, na doação e, como tal, não prescinde da experiência da morte, agora mesmo, aqui mesmo: já. Não houvesse o morrer, não faríamos da felicidade o sentido de toda uma vida, porque ser feliz é, de fato, se fazer infinito enquanto finito. Publicar tem muito que ver com essa promessa não cumprida de felicidade, com essa espera ou esperança, e logo, essa procura pela eternidade prenhe de despedidas que é o instante, ou seja, pelo memorável, pelo memorar, pelo comemorar disto que, vindo a ser (presente), imediatamente deixa de ser (torna-se esquecimento). Na publicação, o ego não é tudo: é quase nada. Fosse realmente tudo, já teria deixado de ser ego. Mas, publicada, a poesia nos dá a sensação de que ela é tudo para a gente, não é mesmo? Imensa, sem-limites, ainda que nos limites de um livro. Ou seja: a poesia se torna de todos e de ninguém. A poesia aparece anônima. E deixa o silêncio aparecer. É ele que comemoramos. Só alguém ou algo pode ser prazeroso ou não-prazeroso. O silêncio, para aquém e para além do dito e do que se diz, não se predica. Está em aberto. Chama-se: o aberto. E o aberto também tem este nome: abismo.
Como você se descobriu poeta?
Não alfabetizado, desenhava bonecos e lhes concedia histórias, contando-as à minha mãe. Mais tarde, a brincadeira virou novela. Todo dia, no mesmo horário, reunia-me com eles para mais um capítulo. Criava, inclusive, trilha sonora para cada personagem. De repente, dei para brincar de canto, dança, teatro. Ficava na calçada de casa, exibindo-me. Arrisquei os primeiros versos por volta dos nove anos e, ironicamente, escrevia-os no verso das provas da escola primária. Dois anos depois, após assistir a um filme, e ainda sem máquina datilográfica nem computador, parti a tecer enredos à mão. A partir daí, fizeram-se compulsivos os manuscritos. Antes de poeta, pensei-me novelista, roteirista, dramaturgo e romancista. Tive pouquíssimas aulas de literatura no colégio, porque, por razões adversas, migrei ao ensino técnico em Química, com uma grade curricular eminentemente tecnológica. Ali, nas ligações de carbonos e hidrogênios, estava o poético. Muito antes de tornado refém dos formalismos textuais e estilos de época ensinados pela teoria literária. E eu fui descobrindo aos poucos a poesia do ácido, da base, do sal.
Impregnar-se de experiências ou, ainda, ser continuamente alimentado pelos próprios poetas. Para que lado você mais se inclina?
Alimentar-se dos poetas é impregnar-se de experiência. Senão, terão sido só livros, dentro dos quais não nos teremos feito livres para ser o que lemos. Não teremos sentido seu gosto, nem aproveitado seus nutrientes, nem sentido as náuseas da má digestão, nem jogado fora os excessos. Por sinal, sabor e saber participam da mesma raiz etimológica. Mas conhecimento e sabedoria não dizem a mesma coisa. Saber é ser o que se conhece! Quando não culminam em experiência, em saber, as obras dos poetas são, no máximo, conhecimento. Permanecem objetos na estante ou na extensa lista das referências bibliográficas, sem que, contudo, se tenham misturado conosco, culminando no que nós mesmos somos após a metabolização. Assim também acontece na vida fora dos livros: se algo ou alguém for capaz de mexer conosco, de transformar-nos, de fazer-nos nascer, de criar-nos, terá sido um poeta na gente, um poeta da gente. Daí que me alimento dos poetas da feira, dos poetas que há dentro do fruto, da verdura, do legume; dos poetas do supermercado, dos poetas-jornaleiros e daqueles não-vistos ou invisíveis dentro das revistas. Participam de mim os poetas da praia, os poetas da serra, os poetas do hospital, quartel e igreja. Participam de mim até os falsos poetas: os que ensinam a escrita que eu não devo cometer. Tudo são livros à espera de leitura, escuta e fala. O átomo, em si, é a grande obra poética que a ciência não acabou nem acabará de ler. A poesia – um dos nomes para a Vida da vida – só acontece mesmo na experiência: seja do que for, com o que for, com quem for, quando, onde e como for.
No trabalho poético você se refere à poesia como construção. Seria um modo de perceber o processo criativo ?
A técnica não é tudo, mas, sem ela, não há nada. Só não devemos permitir que se reduza a um meio para chegar a um lugar já sabido desde o ponto de partida. A palavra grega para arte, techné, antes das apropriações retóricas e das sistematizações filosóficas, queria dizer um caminho de desabrochamento, de desvelo. Não um caminho sempre igual, mas o mesmo se desdobrando em vários, diferentes, irrepetíveis. Originariamente, a techné compreende a travessia do, no, pelo, entre e com o poético da physis, ou seja, da vida originária de tudo. Só depois, com a sobreposição do pensamento epistemológico sobre o ontológico, a tornar a poesia e o mito objetos de um sujeito, chegamos à acepção operativa e instrumental – a techné como travessia da, na, pela, entre e com a razão. Quando falo em "pensamento ontológico", refiro-me ao que a caminhada poética tem de consumação do ser no humano. Techné é, sempre e primeiramente, a peregrinação e/ou procura deste humano no ser. É por conta disso que o programa de mestrado e doutorado em Poética, na UFRJ, do qual provenho, tem por interesse não a poesia como forma ou gênero literário e, sim, como a dinâmica originária de humanização do homem, desdobrável em diversas possibilidades de manifestação e pensamento. Referir-se à poesia como construção significa, assim, não restringi-la ao texto, a menos que, na palavra "texto", se leia tecido, trama, pele, corpo – a nossa casa, o nosso habitat imediato, a partir do qual vida-poesia se constrói e se desconstrói a todo momento. A palavra ética vem daí. Ethos, em grego, quer dizer "morada". Desse modo, não é por moralidade ou imoralidade literárias – e, sim, por uma ética da poesia de cada poema, por uma ecologia de cada um ("eco" vem de oika: casa), por uma aprendizagem de sua habitação e construção – que opto ora pela forma fixa, ora pelo verso livre, ora pelo livre de verso. Há uma terceira margem entre tradição e traição, entre inspiração e transpiração, entre vigor e rigor, que me interessa mais. É na encruzilhada que os caminhos se abrem. É na encruzilhada que nos abrimos aos caminhos.
As vozes de ator, de jornalista, de poeta seguem linguagens diferentes?
Confesso-me atualmente surdo à voz do jornalista, na verdade emudecida em 2008, quando "me aposentei" precocemente como repórter. Ainda que publique resenhas em jornais, meus artigos não obedecem a nenhuma "regra" do jornalismo. Defendo uma escrita em que – seja reportando, seja resenhando – a palavra não seja instrumental. Se, ao comentar um livro, este não me permitir o desenvolvimento de uma crítica realmente literária (feita pelo literário), não emitirei juízo. Tenho que ser pego pela poesia na hora de ensaiar uma resenha; do contrário, serei só retórico. E mentiroso. O poema pode ser ajuizável, mas a poesia acontece ou não acontece. Se não aconteceu, como comentar o que sequer foi vivido? Acabarei comentando apenas de que forma determinado livro se adéqua ou não às formas e às fôrmas de alguma verdade teórica. Assim, abstenho-me de qualquer crítica que só se ocupe de – sadicamente – derrubar um pobre coitado que jamais esteve, algum dia, de pé. Quanto ao ator, este se encontra sempre por perto, por dentro. De fato, escrever é uma experiência corporal. Sentado no computador, meu corpo se contrai, sente dor, goza: é real. Dizer o poema oralmente é também atravessar a poesia em toda sua inteireza. Mesmo cotidianamente, quando penso e falo, transpiro, expiro, inspiro, suspiro, sorrio, suspendo as sobrancelhas, arregalo os olhos, arrepio-me com coisas que me descobrem na hora em que penso descobri-las. Ao lecionar, esse pensamento-corpoemoção faz acontecer o professor-poeta como aluno-ator.
Que tempo pesa mais em sua obra: ontem foi Sete mil tijolos e uma parede inacabada, hoje Zero ponto zero. E amanhã?
Embora publicado em 2010, zero ponto zero foi escrito em 2007 e, cronologicamente, também pertenceria ao "ontem" caso não perfizesse, junto com Sete mil tijolos e uma parede inacabada, de 2004, o meu presente. Eu sou todos esses anos e mais aqueles que, não vividos ainda, já se cumprem como possibilidade. O que pouca gente sabe é que escrevo mais ensaio e filosofia, sendo bastante bissexto na escrita de poemas. Mas, quando começo a arriscar algum, vem uma porção, um atrás do outro, como costura de um livro que nasce de uma ideia regente, de um lead para cada texto-tecido. Processo semelhante está a ocorrer agora, quando começo um poemário novo, dentro da mesma motivação: um tema se desdobra em vários fios e cada linha, afiada e desafiante, corresponderá ao mesmo apelo dos vãos, das aberturas da rede. Enquanto essa trama não se arremata, editam-se duas outras com data de publicação prevista para o segundo semestre de 2011. Dois livros ensaísticos, de cunho filosófico e que articulam as questões da arte, da religião, do mito e da ciência como experiências do sagrado. Detenho-me numa revisão das interpretações das narrativas bíblicas, dos mitos gregos e principalmente dos iorubanos, buscando, na leitura, uma libertação dos paradigmas tendenciosos da metafísica ocidental, nos quais – mesmo sem saber (e é isso que pretendo mostrar) – a própria antropologia e sociologia ainda se baseariam. Trata-se de um encaminhamento acerca da identidade e diferença pouco visitado pelo culturalismo.
O poeta, ora rodeado de muitos amigos, ora muito solitário. Essa oscilação é a própria vida?
Quer queiramos, quer não, o lançamento radical nas questões do homem nos obriga a um recolhimento. O falatório, a tagarelice, a gagueira da pressa impede uma intimidade maior com o silêncio dos pedestres, dos passageiros de ônibus, dos motoristas. Sem a escuta desse silêncio, saturamo-nos de clichês e turvamos os olhos do pensamento. Sozinhos, temos a chance de – no distanciamento– aproximarmo-nos mais e melhor do que nos espanta e de viver o espanto. Temos a chance de caminhar pelos nossos asfaltos, esquinas, cruzamentos, sinais de trânsito, atropelamentos, buzinas e revelarmo-nos construídos por infindas pessoas, lugares, vazios. Meus amigos, meus parentes, meus conhecidos e meus desconhecidos rodeiam-me a memória enquanto penso e escrevo. Por outro lado, quando supostamente junto deles, em mesa de bar, em festa, ou no trabalho, (a)parecemos todos, não raro, tão sós. Não atentamos para o elo que nos consagra amantes e amados pelo mistério que nos une. Não atentamos para a solidão do instante, este que nos pega no colo para que comunguemos com tudo. Se atentamos, corremos para o sozinho e algo escrevemos, nem que seja na mente-coração, nem que seja lavando as mãos na pia. Mas, deixada de lado a largura de um já, não nos estreitamos para agradecer o agora, para agradecer ao agora. O pensamento autêntico habita esses (hi)atos. Nele, não há antagonismo entre comunhão e solidão.
APRENDIZAGEM
Luzidia a mão
que aprendia o gesto
e seus recôncavos.
O recôndito gesto que era passo,
passava sim na mão e ia
abrindo espaço na compreensão
daquele dito gesto que aprendia.
Apreendia o movimento dos sentidos
para sempre
força e afeto, aceno
e ira, cura e palavra,
seta e desenlace,
criação.
Sergio Fonta
Carioca, dramaturgo, ator, escritor,
autor de Rubens Corrêa (biografia).
NOITES LONGAS
O pranto explode alcalino
escorrendo como um
O vulcão que estala em lágrimas
, desabafa suas inquietudes
há tanto efervescentes
Em festa irrompe o dia
, cujo esplendor de luz
se apercebe pelo contraste da sombra
no caule da jaqueira
Da janela de onde tudo se vê
, ouve-se o gorjeio do pássaro
que hora parece o sibilar da serpente
atravessando o vidro
para nadar nas águas cujo mel
já se mistura com o suor da labuta
De resto é a vida que segue
E amanhã será outra noite.
Telma da Costa
Paulista, cantora, atriz, autora
de Além do horizonte.
EDITORIAL
Cercados pela violência da natureza: catástrofes, tornados, enchentes, maremotos; na gangorra da provocação à força da vida: desmatamentos, poluições, desertificações. Cercados pela violência dos agentes do poder: assassinatos, massacres, guerrilhas; em pleno jogo de códigos, leis, estatutos, regidos por ética ambígua. Cercados pela violência das doenças físicas e mentais, no lance do império dos curadores, magias e engodos. Cercados pela violência da tecnologia: avalanche de informações, silencioso aturdimento à falta de comunicação e acolhida. Nesse turbilhão que assola o século, resta a poesia, raiz da arte, que se insurge em qualquer canto. Ela sopra um ar de esperança na voz do poeta que transcende os gritos da violência: a voz dos poemas que se apresentam nesse número do Jornal Poesia Viva.
TRISTE, MAS TRISTE DE NÃO TER JEITO
A Manuel Bandeira e Ézio Pires
Ao tempo estéril não medram sementes.
Ventos incessantes mastigando páginas
conhecidas em cegueiras de domingo.
Na calmaria, a escapar da rede, o sonho.
O poeta adormece em febre alta
e o espaço estranha: quem são? Que fazem?
Pede ao Senhor que as horas rege, inda a tremer
a contaminação, cada segundo
de artérias, veias, capilares, tudo
que, ao corpo, vida possa contemplar.
De outro poeta, sábios versos, em sussurro:
... a lua cor de prata
falou em voz baixa
para a minha tristeza
se mata
Riu-se ele, então, de quanta lucidez
prescrevia, ao cotidiano, essa receita.
Contra a dor, já travara luta intensa
e encontrara só placebos, por antídoto.
A tristeza, nem a morte quer matar!
Léa Madureira Lima
Carioca, poeta, autora de
As cercanias do outono.
COMPOSIÇÃO ENTRE NATUREZAS
OU MONÓLOGO DE UMA FLOR
oh mundo justo-injusto
sou bela
e curta é a minha beleza
tristes
as pétalas se espalham pelo chão
na hora da morte
alguns as recolhem para lembrar um amor
outros limpam as folhas caídas
pelas ruas
qual homem imagina o lugar
da minha dor
quando oferece de presente
a minha beleza à amante?
como saber que o meu coração é feito
de finas nervuras
que tremem quando tocadas?
o amor dos homens me envaidece
e me despedaça
é um tempo estranho o da minha vida
tão curto tão belo tão triste
tão importante quando olhos me olham
e mãos me oferecem
aí o meu destino torna-se intocável
Therezinha Russo
Carioca, escritora, psicóloga, autora de
Variações da palavra dor.
QUEDA
Todos os dias
tudo desarrumado.
Todos os dias
arrumando tudo.
Todos os dias
o sono – a morte,
acordar – a sorte.
Todos os dias
jogo tranquilo,
destruição
e harmonia.
Todos os dias
o roteiro. Sol
irrompendo
no vai e vem
rotineiro.
Todos os dias
sombras
indo, vindo.
Noites descendo
Todos os dias
tempo/ eternidade
lançados na poeira
Leda Miranda Hühne
Natalense, escritora, autora de Brasilaçu.
DA POESIA
o canto do pássaro
à procura do vento
não
a promessa de amor
nas faces da lua
não
o medo do mundo
em cima do muro
não
o malabarista
na corda-bamba
não
o olho do tigre
exato certeiro
preciso
o olho do tigre
sim
Tanussi Cardoso
Carioca, poeta, autor de
Do aprendizado do ar
(Del aprendizaje del aire).
DA COR DA CANELA
"O que é que a baiana tem?"
Ah! Tem desejos inconfessos
bem temperados com molho e remelexo,
como as contas no pescoço
que balançam como a renda da saia.
A vida passa
entremeada de sonhos e Bem-Amados.
Em sua terra apimentada
ou no batuque do Olodum
traz a África sem tristezas ou carências.
Embaladas pela beleza da morena cor de canela,
que deixa que a lavagem do Bonfim
limpe sua alma,
alimente seu sorriso
e leve para bem longe
o preconceito,
a luta,
a vida de puta.
Ave Maria
Sarava Oxum
Juçara Valverde
Gaúcha, artista plástica, médica, autora de
Brechas da vida em linguagem cifrada.
Por que fuzis e canhões, metralhadoras ou explosões?
Tire-se o homem do abismode seu bélico tropismo.
Mude-se o ódio na fala
que, envergonhada, se cala.
Que o crime não aconteça
e a causa desapareça.
Que a mão não pegue na arma.
Não passe a ira do alarma.
Não se plante sofrimento
onde, do amor, não é o momento.
Cantem os pássaros na alma
de quem sua fúria acalma.
Brotem fontes na erma terra
em que a solidão se encerra.
Que o choro e o ranger de dentes
sejam, da paz, as sementes.
E a noite envolva em seu manto,
do amor, o gesto e o canto.
Reynaldo Valinho Alvarez
Carioca, escritor, autor de Corta a noite um gemido.
NAS CONCHINHAS GUARDADAS
Quero saber nos perfumes da infância mergulhar
Voltar a brincar no domingo de arroz doce e bolo
E sentir o vento do mar nas conchinhas guardadas
O grande portão pesado de ferro atravesso
E, travessa, ando de escorrega e subo-desço no balanço
Quero de novo o melado das mãos de sorvete
E o suor da testa no avental enxugar, secando
Assim
Os arranhões de hoje e de amanhã
Quero nas conchinhas guardadas encontrar
A menina do queimado e do pé de goiaba
Quero nas conchinhas guardadas nas manhãs de sol rever
– Cheiinhos de onda espuma cheiro do mar –
Profundos túneis no úmido da areia
No úmido dos olhos saudosos
Teresa Cristina Coutinho
Carioca, professora, autora de contos e poemas
publicados em Antologias.
PELE DE CORDEIRO
O inimigo
não usa mais botinas
nem carrega nas mãos
longos cassetetes.
O inimigo
agora pede licença
escondido
na pele de cordeiro.
O inimigo
não tem mais patente
vive transparente
ruminando tramas.
Ele é sombra.
Ele é vulto.
Não tem mais nome.
E o armazém da vida
continua vendendo
quilos e mais quilos
de pedaços de fome.
Amigo, me responde?
Corro ou não corro perigo?
Quem é o nosso inimigo?
Julinho Terra
Carioca, escritor, autor de
Tenho em mim um candeeiro.
VOCAÇÃO
Sou o mago das coisas mínimas, rasteiras,
Tão dóceis e lindas em sua aparência inútil,
Como os restos sem valor ou função, besteiras,
– A real ligação do aparente inconsútil –.
Como o mistério do musgo à sombra entre os tacos,
Como as minúcias de algarismos e de letras,
Desvendo luz no que é considerado opaco,
Enxergo o que revela o lixo, o gueto, as gretas,
Herdo, solidário, o abandono a elas votado,
Cumpro a solitária função de me importar
Com as sobras, o que não deve ser amado
Porque seja sujo, feio, fraco ou sem lar.
Busco, suicida, o sublime no desprezado
Pois creio na ubiquidade do verbo amar.
Eduardo Tornaghi
Carioca, ator, autor de Matéria de rascunho.
VERÃO
o dia arcífero
com dardos canoros
tende o fio do horizonte
e fere o ar de amarelos
revoada de alvos: alvorecer
setas explodem nos pátios
no peito crespo dos pássaros
filetes lentos de chamas
atravessam venezianas
ruas são Romas
raios são Neros
com a carne em labaredas
debate-se a natureza
a vida, sob chagas centígradas
num ruivo uivo agoniza
e tomba no túmulo
noturno
para amanhã
fenixmente
ressurgir das cinzas
Adriano Wintter
Gaúcho, poeta, autor de poemas publicados em Antologias.
O VASO DE MURANO
Sobre a velha mesa, na sala de jantar, faísca o vaso de Murano.
Meu pai, orgulhoso da compra, fala do cristal em fusão, do forno em brasa, do sopro, do saber do artesão.
O brilho intenso me fascina. Mantenho meus irmãos à distância. (Tanto medo que quebrassem o vaso da minha infância. Tanto medo que se partisse o encanto.)
No cuidado de menino, soldadinhos de chumbo vigiam e marcham pelo piso de tábua corrida.
Hoje, antiga toalha de linho branco recobre em silêncio a mesa vazia.
Augusto Sérgio Bastos Carioca, escritor, autor de À luz da estante.
Stella Leonardos — A poeta planetária —
Assim, Jean Paul Mestas apresenta a "grande voz" da poesia brasileira ao Senado francês, em Paris no ano de 2005, quando foi homenageada por sua obra e atividades, frente a instituições culturais brasileiras, recebendo honrosa distinção. Meses antes, data nacional da independência helênica, 25 de março de 2005, era contemplada com a Medalha Oficial de Mérito Cultural do Consulado Geral da Grécia.
Outra consagração, entre láureas internacionais, foi o "Premi Batista I Roca", do Instituto de Projeccion Exterior de La Cultura Catalana — IPCC, Espanha (Catalunya). E no Jubileu de Ouro da UBE no Rio de Janeiro, da qual foi uma das fundadoras, uma nova homenagem: a Medalha Jorge Amado, a 29 de agosto de 2008. Ao final de 2009, outro reconhecimento, a Medalha do Centenário de Euclides da Cunha, pela Academia Brasileira de Letras.
Com jeito de momecáua ou querpimaia, mãe-do-sonho, na língua nheengatu, Stella fez nascer o Projeto Brasil, "vasto mural verde/amarelo — contendo em torno de cinqüenta e seis obras publicadas."
Em mais de duzentas e trinta livros, vai seguindo ideais, lendas e estórias, concretizando planos, oferecendo-nos rapsódias, cancionários, de sua lavra incrivelmente criativa, seja no teatro, na literatura, em vibração constante de heróis, muitos deles anônimos.
Presidente reeleita da Academia Cariocas de Letras, Secretária Geral da UBE do Rio de Janeiro, além de Vice-Presidente da Sociedade Eça de Queiroz, Stella Leonardos sempre se comoveu ao canto de brasileiras vozes, entre poetas de todas as artes. E no mês de maio, centenário de Dona Lucília, lembrar a filha, Pensando em Lélia, que nos deixou há um ano, é também lembrar a herança de uma obra universal. E a moça que sonhou um futuro grande para a gente simples, de enorme valor, encrusta-se em nossa memória.
IGOR FAGUNDES
diário
Já tive muitas vidas em uma vida
aprendi com os gados e alfabeto dos telhados
Nunca fui de me render às cercas:
perambulo nas esquinas de meus lapsos
até voltar
– cão sabido a dormir dentro de casa
como quem guarda um sonho antigo
para o dono
na hora em que o medo
invade a porteira
Alberto Kaplan
ARTISTA PLÁSTICO
Carioca nascido em 1957. Estudou Arquitetura e Belas Artes na UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Artista plástico, curador de artes visuais, com diversas exposições no Brasil e no exterior, foi professor da "geração 80" na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Rio de Janeiro), e nos anos 1990, da USP, Universidade de São Paulo. Atualmente leciona História da Arte e Pintura na UFRJ e na UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Estes desenhos pertencem ao início de sua carreira – anos 1970, onde explorou as possibilidades poéticas do traço em nankim.