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Poesia Viva Online

Ano 12 - Número 35

Dom Quixote de La Mancha

Um refrão bem badalado no meio cultural é o verso de Fernando Pessoa: o poeta é um fingidor. Mas quem o disse sabia que a expressão não tinha conotação moral. Estava ciente do paradoxo em que vive o poeta: entre realidade e imaginação. Um paradoxo comum a todos os homens mas que se manifesta fortemente no poeta à medida que trabalha na origem da linguagem. Aí as palavras lutam para apreender e chegar aos vários sentidos das coisas do mundo. Aí aparecem os equívocos, embaralham-se as leituras e confundem-se desejos. Nessa dimensão o poeta é um sonhador, um personagem de Cervantes, aparentemente louco, mas aquele que se acha na proximidade do obscuro contexto real e mental. A ilustração de Mário Mendonça mostra Dom Quixote como herói que sabe enfrentar com humor e ironia, as peripécias da vida, poeta que caminha no jogo das reinvenções, vivenciando miragens, poder e fracasso. E todos os poetas que estão sendo homenageados no Jornal deram testemunho da força da palavra para enfrentar “moinhos de vento” e conquistar realidade mais rica e verdadeira, embora efêmera.

Entrevista: Domício Proença Filho
ilustração: Mário Mendonça


Poesias

MÁRIO DE ANDRADE

Cartas escrevia para os amigos
Cartas escrevia para os inimigos
Cartas e mais cartas aos desconhecidos
E vivia sempre só
Escavando um poço
Cada vez mais turvo mais olioso
No seu rio Tietê
Tietê sujo de borras de café
Sugando e se envenenando
No sangue das desavenças
Vômitos de belas artes

E vivia sempre só
À margem das bandeiras
Ouvindo sons de andorinhas
Batuques poemas sinfonias
Em viagens se perdia entre pulos
Gritos de macunaimas
Brilhos gemidos puras vitórias régias
E vivia a dedilhar dó ré mi fá
A cantar sempre a espera
De um dia afinal se encontrar consigo
“então minha alma servirá de abrigo”.

LEDA MIRANDA HÜHNE
Natalense, diretora da Uapê, autora de Fantasmasia.


CRIADA PELO OLHAR DE MIGUEL TORGA

Monsanto, Monfortinho e a Gardunha,
Castelo Branco e, além, Penamacor,
terras que Torga viu com tanto amor
e em que, de artista, o arguto olhar depunha.
A serra, na manhã, ainda estremunha,
procurando, entre a névoa, o gosto e o olor
que a vida tem, quando supera a dor
e o renovar dos grãos já testemunha.
Torga, urze, queiroga, o verde esparso
do solo a despertar no fim de março,
entre o vale e a montanha, ao sol que aponta.
Quanto da terra há em cada homem sóbrio
que enfrenta o caos, o sofrimento, o opróbrio
e um corcel todo espanto doma e monta?


Ásperas terras, altos montes, vales
cobertos de urze e pássaros sombrios,
fragas umbrosas junto a esbeltos rios,
a fímbria que separa bens e males.
Anciãs da aldeia sob negros xales,
cabras e ovelhas sobre chãos baldios,
calados bosques, quase sempre frios,
presságios celtas de distante Gales.
Aqui respira esse artesão arguto
que a vida plasma ao sopro do minuto
e, sob a luz do sol, cansado, morga.
Este, o áspero país da personagem
que se nutre, a cada hausto, de coragem,
criada pelo olhar de Miguel Torga.

REYNALDO VALINHO ALVAREZ
Carioca, jornalista, autor de Galope do tempo.

A PERDA

A Carlos Drummond de Andrade,
nos seus 80 anos.

No princípio e no fim, no vão do meio,
uma perda nomeia o meu caminho
e vai-se transformando em pedra, em veio,
deixando os meus lençóis em desalinho.

Quem foi que andou pisando a minha vida
e me deixou assim meio de fora,
oscilando em mim mesmo, na medida
em que nomeio o amor, aqui e agora?

No princípio era a perda e seu instante
de existência e vazio, dubiedade
carente de sintaxe e vacilante
no seu perfil de ser sem realidade.

No meio, perda e pedra, a poesia
abrindo seu espaço na ante-sala,
onde nomeio o filho, a forma, o dia
no chão do nome e no colchão da fala.

No fim, tudo é princípio e o meio é meio
de alguém cavar no pó do pergaminho
o sentido da perda - áureo veio
na pedra que nomeia o meu caminho.

GILBERTO MENDONÇA TELES,
Goiano, poeta, professor de literatura., autor de Hora Aberta, Poesia Reunida.


A OUTRA PERDA

No princípio e no fim, no vão do meio,
uma perda nomeia o meu caminho
e vai-se transformando em pedra, em veio,
deixando os meus lençóis em desalinho...

Gilberto Mendonça Teles
(“A perda”, do livro Hora aberta)

No princípio e no fim, no vão do meio,
te procuro e te quero mais e mais.
Em tudo que escrevi, tudo que leio,
no poema que fiz, sempre tu estás.

Uma perda nomeia o meu caminho,
nos atalhos persigo a tua ausência.
Onde andarás? Não sei, nem adivinho.
Tudo agora é silêncio e reticência.

E vai-se transformando em pedra, em veio,
meu coração partido. E a dor aperta.
Amor eterno? Não. Eu já não creio.

Deixando os meus lençóis em desalinho
a noite se despede em hora aberta.
No fim tudo é princípio: estou sozinho.

AUGUSTO SÉRGIO BASTOS
Carioca, poeta, autor de O branco improvável.


TRAVESSIA

Entro no poema do Cairo
como num bairro proíbido
entro atento, preocupado
entre o casto e a libido

Sigo no poema do Cairo
entre o céu e o abismo
sigo em transe, estupefato
vivo, morro, me divirto

Saio do poema do Cairo
incendiado e convicto
saio embriagado
transformado em vinho

LUIZ FERNANDO PRÔA
Carioca, poeta e editor do site www.almadepoeta.com, autor de
Retratos da alma.

A FERA
À Astrid cabral

Mão esticada à frente do comboio,
conduzindo as hostes da vigília.
Desde sempre embainhei a espada,
pra não ferir a golpe cego
a opulência da luz, o vigor dos dias.
Enquanto a máquina forte
embaraçava-nos os pulsos,
serpenteando entre os flancos,
querendo atar-nos aos trilhos.

Fazia-se intenso o percurso,
deitava garras e glórias.

A cada estação surpreendia-nos
a intenção do caminho.
Presa ao vagão, contudo, a fera
ardilosa soltava-se ao tempo.
Trôpego chega o roçar de sombras.
Fome de leste leito lavoura.
Até que se apossou de vez do amado
e com a bocarra de sangue manchada
riu e gozou com a minha solidão.

LÉA MADUREIRA
Carioca, poeta, autora de Os vinte e sete degraus.


MAR(LY) DE PERMEIO
À Marly de Oliveira

Que mar agora nos separa?
Que ondas são a permanência
de ti, ausente?
Na falta de nomenclatura mais clara
eu a chamo de mar. Mas há outras metáforas:
não bastam.
Recolho em teus poemas o rasto
e parto. Como uma carta que não sai do lugar
Estamos juntos
no ontem da palavra.
Esta ponte. Maior, muito maior que todo mar

MARCUS VINÍCIUS QUIROGA
Carioca, doutor em Literatura Brasileira, autor de Campo de trigo maduro.


BILHETE A GIL VICENTE

Meu caro Gil Vicente,
como não chorar
o leite derramado?
Como não chorar
o amor café-requentado
ginástica de corpos frios?
Como não chorar a mocidade
que para sempre jaz
do outro lado do rio?

ASTRID CABRAL
Amazonense, professora de literatura, tradutora, autora de Rasos d’água.

CECÍLIA MEIRELES

A tarde de novembro era sustida

Na súbita notícia dessa morte
Como se houvesse fim para uma vida
Feita de versos, cânticos e forte
No barro mesmo em que se tece a trama
Da permanência. A crônica reclama
Que Tiradentes e outros personagens
De Cecília se cubram das roupagens
Que convêm à serena condição
Dos mitos pelo tempo. Todos são
Agora no país que é nosso e dela
Mais realizados, donos de janela
De ver além dos ápices. Ou isto
Ou aquilo. Poemas, sons, em misto
De matéria mortal e jubilosa
Continuação, presença, como rosa
De metal para sempre rosicler.
Numa revolução esta mulher
Poeta sempre foi, não poetisa,
Que na palavra às vezes se divisa
Um destino. E poeta permanece
Neste novembro agora posto em prece.
Saí, fui conversar com Heitor Grillo
Lembrar versos - dizer isto ou aquilo -
Perceber os minutos já primeiros
De um futuro iniciado em desesperos
Calmos de quem sentiu verso e reverso
Dos gumes. Quando à noite fui ler verso
Disto ou aquilo Zora me dizia
Que o silêncio surgido em meio ao dia
Era sinal de data com lembrança
Em centenário e festa de criança
Com Cecília no século vinte e um
Recitada por grupos de meninos
Já os vejo chegando - de um em um -
No começo de súbitos destinos
Lendo versos com límpida alegria
Felizes de ser gente e ter poesia.
Novembro, 1964

ANTONIO OLINTO
Poeta, romancista, acadêmico, autor de Trilogia Africana.


PÁSSARO SURDO

Para Reynaldo Valinho Alvarez

Estou grave
gravemente lúcido
pássaro surdo
acuado no canto escuro
da cidade sórdida
sem versos sem asas
grávido de espinhos.

CLEBERTON SANTOS
Baiano, ensaísta, professor e autor de Lucidez Silenciosa.

CANÇÃO DA ESTRELA DA MANHÃ

Andorinha, andorinha
conta alegre ao Manuel
que a estrela da manhã
não pecou pela noite toda
à toa, à toa.

Achou bom humor no céu
riu dos clowns de Shakespeare
visitou sua Pasárgada
aprendeu libertinagem
foi cenário e cortejada
loucamente pelo orvalho.

Salpicada e perfumada
por ele e pelas três
mulheres do sabonete Araxá,
sua estrela aqui está:

ei-la ei-la estrela da vida inteira
bembelelém a estrela Vênus
bela bela a estrela da manhã
nua e sua, Manuel Bandeira.

RITA MOUTINHO
Carioca, poeta, escritora, autora do livro Soneto dos amores mortos.

CAMPO DE VÔO

Em memória de Joana Maria Guimarães

Por todas as palavras
levadas ao forno, por todas
as esperas que borbulham
na panela de pressão, por toda
mesa posta na copa ao meio-dia
a rezar poema com fartura,
temperado de silêncio, por toda
tentativa de lavar a louça suja
e esquecer as manhãs mortas, por todas
as respostas que desceram pela pia
ou congelaram-se no freezer, esquecidas
ou caladas em retratos sobre a arca,
tramam cantos, por toda a geografia
de uma casa em que a poeira se liquida
ao badalar dos sinos, por todos os que
de saltar da ribanceira das estantes
e se chamam livros, e proclamam livres
os que bordam, em cadeiras de balanço,
vôos para um anjo de asas partidas
a abraçar a Terra inteira como céu.

IGOR FAGUNDES
Carioca, poeta, jornalista, mestre em Poética, autor do livro Por uma gênese do horizonte.

VERSOS BÁRBAROS
Para Augusto dos Anjos

Existe um vento silencioso entre os adjetivos e o poema mais delicado.
Se escrevo dor, não há enganos. É nítido o dragão que me olha:
Conhece minha casa, raiz de minha solidão.
É lugar-comum dizer que poemas florescem e têm cheiro de morte.
O que busco está no espaço das estrofes.

Um verso bárbaro para que eu continue devorada, pobre de afetos
mas é lícito saber que escrevo derrubando árvores.

LILA MAIA
Maranhense, autora de Céu Despido.

A UM GRANDE POETA

Escrito após ler Tarde de Paulo Henriques Britto

Não é só gostar de ler
É encontrar afinidade.
A múltipla unidade formal
mede a distância entre as formas,
me faz sorrir humilde.

A soma de encontro mais distância
irrompe às vezes lágrimas reveladoras:
aquece os vazios sempre frios,
acetina ao identificar a perfeição.
Aceito o alimento de minhas fantasias.

Se sou o que escrevo
modestamente agradeço
ter a natureza acrescentado
à beleza da flor

ADELE WEBER
Paulista, arquiteta, autora de Tipos de rua e alguns recados.


DEITEI REBENTOS?...

Ao Ivan Junqueira

Deitei rebentos... adormeci ventos...
os olhos espreitaram as chamas latejadas
e a cama ardeu em brasas flamejantes...

Ruíram castelos, ruíram até os sopros de vida
o solo foi arado em meio ao assombro
e os halos sem arco perderam o brilho.

Deitar rebentos? ... Onde? ...
nos aturdidos gritos sob escombros?
Estes amedrontaram até os mitos
restaram ritos vibracionais
enjaulados em teias e tramas
nos gestos nas gestações interrompidas
no sangue pisado desses fetos inconclusos...

Que lamba o fogo até a estreita veia vazia...

ANA VALLS
Carioca, psicóloga, poeta, autora de Desentranhamento.



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